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Opinião

MORALISMO OU CIDADANIA

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A cena está no livro Honra teu pai, do jornalista americano Gay Talese. Bill Bonanno, herdeiro de uma poderosa família mafiosa, folheia um almanaque. Uma frase chama a atenção: ?A Terra está em degeneração. Há sinais de que a civilização chega ao fim. O suborno e a corrupção campeiam. A violência é onipresente. Os filhos já não respeitam os pais nem lhes obedecem?. Ele sorri. A frase é atribuída a uma inscrição assíria, do ano 3000 antes de Cristo. Em cinco mil anos o mundo mudou; nós, habitantes, nem tanto. A sensação de decadência moral atravessa os milênios, do pecado original aos escândalos de hoje, passando por Roma e a corte de Luís XVI. Também antigos são os que, alimentados pelo desconforto da população, se arvoram no papel de cruzados da moralidade. Alguns usam máscaras. Máscaras têm a mania de cair em momentos inoportunos. Um iracundo pastor americano é flagrado com adolescentes, em atitudes infernais. Um senador, paladino da ética, se afoga em uma Iguaçu de denúncias. Os falsos moralistas destroem a confiança nas personalidades públicas. Há os sinceros. Estes, infelizmente, são inócuos. A abordagem moralista esbarra em um problema crucial: ela é voltada para um personagem pouco suscetível à influência da política: o indivíduo. Ao tratar das questões sociais, o poder público deve ter em foco um outro ente, que, embora se assemelhe ao indivíduo, possui natureza distinta: o cidadão. O cidadão é a face pública do indivíduo, aquela que é, da sociedade, tributária e beneficiária a um só tempo. Ao cidadão cabe o dever de cumprir as leis e respeitar as instituições. Atuar para o cidadão é atuar para a coletividade. Melhorar as leis e sua aplicabilidade, aperfeiçoar as instituições, dar eficiência à Justiça e à polícia. Punir os criminosos, sem distinções nem privilégios. Assegurar os direitos básicos e a igualdade de oportunidades. Garantir a liberdade de opinião, expressão e opções do indivíduo. Os homens não são, nunca serão, ovelhas. Há lobos demais no rebanho. A organização dos Bonanno foi desmantelada pelo FBI. Bill foi preso e cumpriu a pena de 12 anos. Livre, viveu com a família, em um modesto rancho no Arizona, até sua morte. É pouco provável que o católico Bill tenha se tornado um santo. Bonanno, o cidadão, não voltou a cometer crimes.

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