Opinião
AS COREOGRAFIAS DE TRADI��ES POPULARES
A grande maioria dos que leem o que eu escrevo neste espaço precioso de comunicação sabe que valorizo imensamente as tradições culturais, mas também sabe que sou um defensor das boas tradições cujas coreografias evoluem com o tempo: uma delas é a festança junina. Para qualquer bom nordestino, as comemorações juninas estão atreladas a costumes quase cotidianos do nosso povo, como as comidas de milho, o arrasta pé animado e as comemorações de rua. Queimam as fogueiras e os fogos de artifício. Por esses mesmos motivos que acabo de descrever, os mais conservadores gostariam que as manifestações culturais permanecessem exatamente como um dia eles a conheceram. Nesse ponto, há o que podemos chamar de um saudosismo natural de cada época, mas também temos que considerar pelo menos duas outras coisas. Primeiro que as festas juninas dos anos 1970 já não foram iguais às dos anos 1980, que certamente não foram iguais às décadas seguintes. De forma que podemos dizer que não há tradições populares que consigam passar imune às novas gerações que a realizam: afinal, são culturas vivas e, por isso mesmo, se modificam ao longo do tempo. Em segundo lugar, temos que admitir que cada época sabe dar um colorido especial ao seu momento, sendo necessário, de nós, lançar um olhar mais reflexível para perceber a beleza das novas leituras. Um bom exemplo disso é a tradicional quadrilha junina. Com o passar do tempo ela deixou a beleza sutil da matuta angelical que usava vestidinhos quadriculados e comportados, para encarnar a determinação da nordestina emancipada, que se apresenta com a exuberância do seu tempo. O matuto de dentes maltratados dá espaço a cavalheiros com corpos malhados e sarados, disposição para danças coreografadas em seus mínimos detalhes. A exemplo do que se converteram as escolas de samba do eixo Rio-São Paulo, as quadrilhas estilizadas do Nordeste escolhem seus temas e transformam a dança e a música em espaços privilegiados de manifestações outras, que vão desde o protesto às homenagens a grandes nomes da cultura brasileira. A nós, que presenciamos um outro tempo, resta olhar e perceber a beleza de uma nova leitura para algumas de nossas velhas tradições populares.