Opinião
G�MEOS
Pela boca de Ivete Sangalo, a proxeneta Maria Machadão ensina, ex cathedra: ?Puta que se apaixona é burra?. A fala compõe a personagem que esculpe a denunciadora obra de Jorge Amado sobre a vida no Sul da Bahia, na fase áurea do cacau. Corolário desse, digamos, aforismo, é o recebimento antecipado pelos serviços prestados. No caso de horas extras e outros mimos, ?chega-se junto? pelos excessos não previstos. Afinal, não há almoços grátis. A proibição do beijo na boca é cláusula pétrea. A tudo isso se convencionou chamar de código de ética. Falo de profissões, ganhos, ética etc., e logo me vem a invejável categoria dos políticos. Não sei onde estava com a cabeça quando me meti a ser médico. Poderia também ser um advogado bem sucedido, a exemplo do dr. Thomaz Bastos. Faria nome defendendo presos políticos, prostitutas, alguns canalhas mais ricos ? que ninguém é de ferro... Se o bom Deus ajudasse, chegaria a ministro da Justiça. Lá, fingiria que não faria tráfico de influência. Meu escritório, à sorrelfa, bombaria. Seriam quatro anos de renúncia, recebendo míseros oito mil reais. Livre das peias do cargo, limitar-me-ia a influenciar indicações para o Supremo. Seria uma espécie de Richelieu do petralhismo. Como advogado, mesmo sendo um ex-ministro da Justiça, não iria me constranger ao defender horrendos marginais e dar-lhes dicas ? falar com mãozinha na boca e tudo. P.Q.P. com noblesse oblige! Qual o problema dos meus honorários saírem da contravenção? Afinal de contas, se fosse depender de homens de bem como clientes, morreria de fome. Entretanto, o meu sonho de reencarnação é voltar político. Entre Lula e Maluf preferiria ser Lula, um Maluf que chegou à presidência. Passaria oito anos fazendo de conta que governava. Iria tomar muita cana e fumar muito cubano. Antes, esculhambaria com tudo: picaretas do Congresso, banqueiros, industriais, Sarney, Maluf, FHC, ACM, Serra, Barbalho... No poder, me agarraria àqueles caras que eu odiava. No meu governo, meu filho, porteiro de boate, gênio oculto, seria o exponencial de Bill Gates e Steve Jobs. Tal um São Jorge de Bordel, o mensalão correria solto. Negaria até sob tortura. Sim, faria uma sucessora. Fincaria conhecidos ladrões nos ministérios. Tudo cobra criada. Humilharia o câncer, embora a voz minguasse. A radioterapia e as drogas detonariam parte dos meus neurônios. Portadores de ética sui generis, me juntaria ao Maluf, meu impagável irmão gêmeo.