Opinião
MEMORIANDO
Parece-me que, com a passagem do tempo, a memória de fatos passados me visita com mais frequência. Volta e meia, sinto um perfume de lavanda, como se mamãe tivesse passado por mim. Outras vezes me sinto saudosa dos tempos em que os meninos eram pequenos e eu os tinha à mão juntando-os todos para o café da manhã, uniformizados para o colégio... Eles falavam ou brigavam por bobagens sem a menor importância, mas sentia-se a alegria no ar. A despreocupação deles quanto ao futuro era evidente. Meio dia chamava-os, ainda no portão a se despedir dos colegas após as aulas, para o almoço. À noite, o mesmo ritual, e a certeza de que nada lhes faltaria, porque a nossa prioridade sempre foi a saúde e a educação deles. Dizem que quando os filhos crescem, a preocupação redobra. Assim, é! Começa pela escolha da carreira. Se for realmente a que se coaduna com o perfil de cada um... Depois, com a mulher que escolheram para companheira de jornada. Finalmente, se estarão bem financeiramente, no trabalho e respectivos casamentos. Lembramo-nos da preocupação dos nossos pais, já envelhecidos e, segundo nossa ignorância, desperdiçando tempo em se preocupar conosco. A fila anda, mas ninguém se furta às lembranças do passado. Vi, recentemente, um filme que assisti há uns cinquenta anos... A força do coração, estrelado por Elizabeth Taylor, ainda menina. Ela e a famosa Laisse, fêmea da raça Collie que emociona pelo desempenho. Adorei rever esse filme garimpado na Sky. Retroagi no tempo novamente, lembrando os valores que não existem mais atualmente, por absoluta inércia ou permissividade dos pais. Eles não brincam com os filhos, dificilmente conversam com eles e muito menos sabem no que pensam, de fato, fazer. Sabem apenas punir, sem nada resolver. Um dia uma vizinha me flagrou brincando com meus filhos e coleguinhas, sentada no chão. Ela perguntou por que eu sempre sabia para onde eles iam, quando saiam? Faça o que faço, respondi. O fato é que nunca soube ao certo de tudo o que aprontaram na adolescência. Não deverá ter sido nada grave, considerando os desatinos atuais. O fato é que durante esse tempo, jamais recebi qualquer reclamação sobre o comportamento deles. A confiança sempre foi mútua. Um dia, o caçula perguntou, voz alta, lá do escritório do pai, para que eu ouvisse de onde me encontrava: Mainha, quantos anos você quer ter? É para um trabalho da escola... Respondi, imediatamente: trinta e dois. Eu contava 40...