Opinião
N�S FAZEMOS A ESCOLHA
Em um fim de tarde de segunda-feira, no dia 14 de maio passado, um senhor de 67 anos foi assassinado em um estacionamento coberto de um movimentado supermercado da capital. Não importa se ele reagiu ao assalto. Ao ser abordado por um bandido com uma arma, a reação das pessoas é imprevisível. O que importa é que uma pessoa foi assassinada em um local público, onde poderiam estar eu ou você, e neste, sem dúvida, não havia segurança preventiva eficaz para evitar a ação destes indivíduos e salvaguardar os clientes que do estabelecimento fazem uso. Certamente, também não existiu segurança pública eficiente para proteger aquele cidadão que nem conheço; circunstância esta que é uma obrigação do poder público. Nunca devemos esquecer que para a família da vítima seguem a dor da perda abrupta e o trauma da violência insana e incontida. Porém, no local, após a tragédia, o sangue é limpo do assoalho com água e sabão. A rotina volta ao comum e as outras pessoas vão ao mesmo supermercado, param no mesmo estacionamento, muitas delas na mesma vaga onde parou aquele senhor que foi assassinado, como se nada tivesse acontecido. É como se a memória social desejasse esquecer aquilo que não consegue evitar. Acontece que ao continuar a frequentar o mesmo estabelecimento, além de arriscar-se a passar pelo mesmo fato, as pessoas estão reforçando que ele continue a não se preocupar com o que devia, pois suas vendas não foram afetadas. Se elas caíssem no mínimo 30% depois de algo assim, com certeza tomariam as providências adequadas e jamais permitiriam que outra situação destas ocorresse. A queda nas vendas é muito mais significativa e resolutiva do que qualquer punição, pois afeta a sobrevivência do local. E isto somente pode ser realizado pela escolha dos consumidores. Na verdade, esta escolha é quem define o comportamento das instituições. Existindo outras opções, os clientes são livres para escolher onde bem quiserem frequentar. Resta-nos refletir porque então eles não agem dessa forma. Será que pelo comodismo mesquinho de não mudar a própria vida por causa do mal que ocorreu com o outro, será pelo ato míope de pensar que a mesma ocorrência não acontece consigo mesmo, será pelo egoísmo imaturo, será pela desinformação momentânea, será pela tola e ignorante esperança de que alguém vai fazer algo a respeito ? Nós é quem devemos fazer. Nós fazemos a escolha e ela faz a nossa vida ser como é. Na teia social da cidade onde moro, eu nada sou. Mas posso fazer algo a respeito pois ainda tenho o direito de escolher onde quero ir. E se depender de mim, eu jamais retornarei em um local onde não exista condições que garantam a vida das pessoas. Porque, simplesmente, enquanto não dermos à vida o devido valor, ela não terá.