Opinião
A VIDA E A MORTE MERECEM DIGNIDADE!
O foco da mídia, nesta última semana, foi o Instituto Médico Legal. Vocês conhecem as condições atuais, ouviram o desabafo do antigo diretor do órgão e as imagens das instalações, em noticiário local? A palavra mais adequada é indignidade! O ambiente mais parecia um lixeiro. As reivindicações são antigas e recorrentes. Os profissionais da área chegaram à exaustão. A última alternativa foi a greve. Constrangedor, humilhante e revoltante ver dezenas de familiares dos mortos suplicando pela liberação dos corpos dos seus entes queridos. Fiquei chocada com as cenas desumanas mostradas no AL TV: policiais impedindo a entrada dos parentes das vítimas fatais. Mas, o que fazer? Os médicos legistas, os técnicos, os funcionários de limpeza merecem respeito! Eles chegaram ao ápice da tolerância e do descaso público. Infelizmente, às vezes, medidas radicais são necessárias para se fazerem ouvir por nossos governantes. Há anos, precisamente em 1974, quando estudava Medicina na Ufal, na antiga Faculdade da Praça Afrânio Jorge, frequentava as aulas de Medicina Legal nas mesmas dependências atuais. Apesar do ambiente ser um tanto mórbido, não me lembro de sujeira, nem de aspecto decadente. Passaram-se 38 anos! Quase quatro décadas de imensurável progresso tecnológico, e nosso IML não tem sequer um aparelho de raio X! Vi em uma dessas reportagens, focando o abandono do instituto, um documento de mais de 30 anos em que o saudoso amigo, ilustre clínico e legista, dr. José Lages Filho, solicitava este aparelho. Desalentador, não? A sociedade sente-se desrespeitada! Falta investimento, falta bom senso, faltam condições de trabalho e falta, sobretudo, vontade política. As súplicas dolorosas televisionadas são o retrato da administração pública brasileira e, principalmente, alagoana: ?Eu me sinto humilhado; meu primo faleceu. Ele é filho único e minha tia fica pedindo: traga meu filho, traga meu filho...? A situação é caótica. A classe médica, que trabalha no serviço público, em regiões pobres e em todo o Estado, é feita de abnegação, tolerância e solidariedade. É desumano sentir-se impotente diante de um paciente moribundo devido à falta de sensibilidade, respeito e responsabilidade públicos. É desumano trabalhar cercado de cadáveres, alguns deles putrefatos, sem a mínima infraestrutura técnica e física. A vida e a morte merecem dignidade!