Opinião
U�SQUE PARAGUAIO
O presidente Fernando Lugo, do Paraguai, foi eleito em 2008 com o apoio da maioria dos partidos, movimentos políticos e organizações sociais da Concertación Nacional que formaram a Aliança Patriótica para a Mudança (APC). Teve incríveis 75% dos votos válidos. Acontece que no Paraguai, 80% das terras estão no poder de 2% da população, segundo agências internacionais, e 39% da população vivem na pobreza. Entre suas promessas de campanha, estavam a redistribuição de terras e uma reforma agrária, gerando conflitos com grandes produtores e industriais do país. A oposição possui a maioria no Congresso, o que impossibilitou que ele desse andamento a emergentes e necessárias reformas. Pois, destituíram Lugo da presidência. Os argumentos apresentados pela acusação no processo relâmpago contra o presidente foram baseados somente em matérias publicadas pelos jornais locais. O documento que o afastou já estava pronto, desde quinta-feira, dia 21. Além de cercear-lhe o direito à ampla defesa, o tom dos discursos no Senado era raivoso e leviano, ligando o ex-presidente diretamente ao massacre dos sem-terra em Curuguaty, que ainda não foi esclarecido. Há acusações de dirigentes dos movimentos sociais de que foi uma cilada armada com franco atiradores, que dispararam tanto contra os ocupantes, quanto contra os policiais ? o conhecido ?crime de bandeira trocada?. Se comparada à situação similar ocorrida no Brasil, seria algo como destituir Fernando Henrique Cardoso da presidência, dias depois do massacre de Eldorado dos Carajás. A elite econômica e política paraguaia confirma sua vocação para a falsificação e produz mais uma fraude contra a cidadania. Condena, assim, o país a ser eternamente uma zona franca, um entreposto de contrabando oficial de eletroeletrônicos chineses, de produtos falsificados, rota permanente do tráfico internacional de drogas. Um imenso latifúndio de soja e gado, cercado pelo olhar faminto de uma legião de milhões de miseráveis. Que ninguém se iluda. Este duro golpe terá graves repercussões na já combalida democracia da América do Sul. Representa uma ruptura com a ordem democrática do continente, resultando num governo antidemocrático e ilegítimo. Retrocesso à vista. É só esperar para ver.