Opinião
Mercosul, um jovem interrompido
Diplomacia é a arte de aparar arestas e reduzir distâncias. Mesmo que naturalmente subordinadas às linhas da política externa de cada país, as iniciativas diplomáticas sempre se caracterizaram pela busca do entendimento, mais das vezes amenizando, na prática, posições abertamente conflituosas entre nações. No recente caso da reação dos governos vizinhos ao impeachment do presidente do Paraguai, parece que a diplomacia, em seu sentido popular de pacificação, cedeu lugar ao conceito mais beligerante do afiar arestas e alargar distanciamentos. Inegável é o direito dos governos nacionais emitirem seus pronunciamentos sobre acontecimentos políticos alhures. Troca de notas, muitas das vezes redigidas em tons ásperos, é coisa comum; faz parte de uma ação ?pouco diplomática?, digamos assim, das relações exteriores, mas usualmente restringe-se à retórica e à delimitação de posições. Quando o verbo se faz ação, a coisa muda de figura. O estressamento da já conturbada relação intestina no Mercosul, onde despontaram simultaneamente a punição ao Paraguai e a adesão da Venezuela, ambas decisões discutíveis, é um desserviço à causa da união entre as nações latino-americanas. Bandeira, por sinal, marcada por incontáveis dificuldades desde os primórdios do processo de independência das colônias da Espanha e de Portugal. Todos os passos dessa contradança demonstram descompasso, onde cada um parece ter interesse em apenas pisar o pé alheio. Em resposta à criticável decisão de punir o Paraguai por decisões absolutamente internas e próprias do processo constitucional daquele país, seu novo governo acena com a possibilidade de destempero maior ainda em sua tomada de posições. À boca nem tão miúda assim, fala-se na possibilidade de Assunção replicar as ?punições? recebidas, aderindo a velhas propostas ? como a temerária concessão para bases americanas em seu território. O Mercusul, aos 21 anos, e ainda mal resolvido, cujo principal avanço até agora foi sua própria criação, em 1991, volta a correr risco de morte. Uma estupidez.