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Opinião

A honestidade sob a pobreza

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Na fria madrugada paulistana de ontem, dia feriado em São Paulo por conta da chamada ?revolução constitucionalista de 1932?, um casal de moradores telefonava, a cobrar, para o 8º Batalhão da Polícia Militar. Segundo o relato dos militares, eram 3h30 da manhã e os excluídos ligaram para o 190, mas não pediram ajuda para si, nem mesmo solicitaram algum socorro para outrem. O casal de miseráveis, paupérrimo, queria entregar às autoridades um pacote de dinheiro que havia encontrado no lixo. O embrulho continha nada mais, nada menos que R$ 20.004 (vinte mil e quatro reais). Os dois, sobreviventes na mais profunda pobreza, não vacilaram na hora de decidir se ficavam ou não com o que não lhes pertencia. Não usaram a máxima de que ?achado não é roubado? apensa viverem do que acham no lixo. Julgaram apenas que aquele pacote de dinheiro provinha de alguma ação criminosa e optaram por não ser parte do malfeito. A polícia informou, posteriormente, que o valor corresponderia ao resultado de um assalto cometido contra um restaurante japonês, cujos proprietários, informados da ocorrência, compareceram à delegacia para os procedimentos necessários ao resgate da quantia. No depoimento colhido pelas autoridades, o marido relatou o seguinte: ?Minha esposa viu o saco e falou: ?e aquele saco ali??. Na hora em que fui lá e abri, estava todo esse dinheiro. A única coisa em que pensei foi acionar o 190. Quando os policiais chegaram, não acreditaram que eu estava devolvendo. Eu parei para pensar no que minha mãe falou para mim: nunca roubar nada que é dos outros?. Uma das reflexões mais importantes sobre esse tipo de ocorrência desconstrói a justificativa ?ideológica? de que a pobreza é mais vulnerável à tentação do crime. Ou, noutra formatação da mesma enrolação teórica, ?o crime tem suas bases na desigualdade social? e sandices do tipo ?o crime precisa ser combatido com prevenção e não com repressão?. Em verdade, nem mesmo a pobreza mais abjeta força alguém a seguir a senda do crime.

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