Opinião
VEXAME NACIONAL
Quando dois catadores de lixo acham uma quantia em dinheiro e devolvem, este fato tão normal, do ponto de vista moral, se torna ?causa de juízo e condenação?. A honestidade em nosso País continua a ser festejada pela mídia com o mesmo sabor dos grandes acontecimentos. Não estamos acostumados. Desde o dia em que o seu Francisco foi reverenciado até pelo então presidente Lula, pelo mesmo ato, ficou na história. Agora, todo o mundo já havia esquecido. Esta nova façanha do casal de moradores de rua de São Paulo é um oásis num país onde a corrupção se alastra como uma epidemia. Quando aquilo que deveria ser uma prática se torna uma exceção alguma coisa está muito errada. Assisti, uma vez, ao desdém com que um conterrâneo se referiu ao dr. José Maria David de Azevedo. ?Um homem que já foi presidente da Telasa, presidente da Ceal, secretário da Fazenda, teve não sei quantos cargos públicos e anda num carro vagabundo possui uma casa na Ponta Verde, que nunca terminou. Esse cara deve ser honesto?. Como se honestidade fosse sinônimo de idiotice e a prática da desonestidade fosse algo tão normal que se o indivíduo tem oportunidade e não faz, é burro. É possível que o maior problema da sociedade contemporânea seja viver a sua própria realidade. A glória do capitalismo é o desejo do consumo. Isto é patente em todos os lados. O incentivo ao consumo está presente em todas as mídias. É o que move o País. No meio de tudo isso, está a movimentação simultânea das classes sociais em busca da riqueza. Novo paradigma do capitalismo: chegar aos 30 anos com o primeiro milhão. Para um país que não se envergonha da miséria humana, o Brasil vivencia, a cada dois anos, uma eleição que se locupleta desta mesma miséria para eleger seus candidatos. Investem-se verdadeiras fortunas que os próprios salários jamais cobrirão. E mesmo assim, numa afronta à nossa inteligência, prometem o impossível. Vivemos a crença de que um será melhor do que o outro. No final, estão todos na mesma mesa, falando a língua que conhecem: o poder. Por isso, o fato do seu Rejaniel dos Santos, um morador de rua, um catador de lixo, ter devolvido os 20 mil reais que achou é um vexame nacional. Se é que há mais alguma coisa para envergonhar aqueles que, mesmo atolados na lama, mantêm o mesmo silêncio, debochado e arrogante, orientados por um séquito de defensores. Festejar a honestidade não é diferente de deixar impune o desonesto.