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Opinião

UM ANJO DE PAZ

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Como milhões de brasileiros, confesso que também senti no coração um pulsar de emoção muito forte naquele momento. A ave branca que pousou sobre o esquife de d. Eugênio Sales e ficou por horas, inclusive durante o deslocamento da urna funerária, sobre ombros da guarda de honra, não tenho dúvida, mexeu com o sentimento de muita gente, porque ali pareceu estar escrito: era o dedo guia de um Ser superior. Pareceu um anjo que, rompendo a multidão, chegou para receber aquela alma que foi uma das mais puras que o mundo dos humanos conheceu, peregrina da paz, da humildade, da união entre os povos, da solidariedade, da caridade, do amor ao próximo, da justiça. A presença daquela pombinha branca, serena, tranquila, deixa caracterizado um sentido simbólico importante nos dias em que o País católico e de todos os credos rendia as últimas homenagens ao padre, bispo e cardeal que, pelos caminhos da sua história, enfrentou os mais improváveis desafios. Encarou as ditaduras militares no Brasil e na Argentina, abrigou mais de quatro mil pessoas perseguidas pelos regimes tiranos do Cone Sul. Criou as pastorais do trabalhador, das domésticas, das favelas, da saúde, do menor e muitas outras louváveis ações. Seu lema como bispo foi baseado na Carta de São Paulo aos Coríntios: ?De muita boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós?. E foi verdadeiramente a grande missão de sua vida doar-se, amar ao próximo. Sobre a pomba branca, feliz, que pousou e tomou posse do caixão do cardeal, desde os tempos bíblicos foi considerada a ave da paz, a partir do grande dilúvio universal. Conta o livro sagrado que, após a cheia enviada por Deus para varrer a maldade do mundo, Noé ordenou que, entre os muitos animais que lotavam a embarcação, uma pomba deixasse a arca e procurasse descobrir se as águas haviam baixado. Algum tempo depois, o pássaro voltou trazendo um ramo de oliveira no bico, o que significava que havia árvores e, portanto, poderia o barco atracar em terra firme. O perigo sumira e a paz voltara a reinar no planeta. Silenciosamente, o anjo em forma de pomba foi a inspiração que d. Eugênio encontrou para se despedir do mundo dos vivos deixando uma última mensagem. Na imagem de mansidão e ternura, iluminado pelo branco que evoca a pureza expressa naquela ave, ele quis eternizar seu exemplo de retidão aos irmãos brasileiros. Descanse em paz, d. Eugênio!

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