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Nº 5712
Opinião

Aventura de ler

GILBERTO DE MACEDO * Aventura, sim, enquanto pureza, esforço, valor – de ler; conquista de aprender o sentido de uma mensagem, assimilar o significado de uma frase, perceber o recado de um aviso escrito, de um anúncio. E, ainda, mais profundamente cheg

Por | Edição do dia 17/10/2002 - Matéria atualizada em 17/10/2002 às 00h00

GILBERTO DE MACEDO * Aventura, sim, enquanto pureza, esforço, valor – de ler; conquista de aprender o sentido de uma mensagem, assimilar o significado de uma frase, perceber o recado de um aviso escrito, de um anúncio. E, ainda, mais profundamente chegar à motivação da criação na poesia, ao pretexto do enredo no romance; à causalidade no conceito científico; ao encanto na escrita sobre as artes; à razão no discurso filosófico. Assim, nas várias formas de leitura. Por isso bem dizia o filósofo Bacon que “A leitura faz do homem um ser completo”. E ser transcendente, além do espaço e do tempo. Supera distâncias geográficas e tempos físicos, conforme lembra Dossi: “O homem que sabe ler fala com os ausentes e mantém vivos os que já morreram. Comunica-se com o universo – não conhece o tédio...” Assim a leitura permite a total liberdade, infinita, abjugada das amarras materiais. O Homem acima das limitações físicas da realidade. Além do espaço e acima do tempo. Para isso, porém, é preciso saber ler. E saber ler não é apenas atividade motora do sistema ocular dirigida para um texto. Mas é um ato da inteligência e do pensamento, que permite vislumbrar o sentido da palavra escrita e o significado da frase. Ato que esclarece a realidade, que traduz a mensagem, dando o entendimento. Assim, identifica. Em suas várias modalidades: na leitura do texto bem escrito, suscita a beleza que emociona, distende e relaxa o corpo; na expressividade de boas idéias, aperfeiçoa a alma; nas mensagens da verdade, enriquece o espírito. Esta é a boa leitura, que eleva o leitor, e que se distingue da leitura sobre o texto de má qualidade que inferioriza. A boa leitura, enobrece. A má leitura degrada. Saber ler, portanto, é fundamental para obter os resultados desejados. É, então, necessário escolher o que e como fazê-lo. Não basta ser alfabetizado, como bem adverte, Otho Maria Carpeaux: “Os homens não sabem mesmo com algum exagero ler. Aplicam a um poema o mesmo processo errado que aplicam a anúncios de jornal, ou a notícias de propaganda política: contentam-se com o sentido superficial das palavras, sem explorar a intenção daquele que faça. Confundem duas coisas que estão juntas em cada palavra ou escrita: a expressão e a intenção”. Ler, portanto, não é simples passatempo, mas ato de raciocínio, uma prática de criatividade, donde dizer Richard Steele que “A leitura é para a mente o que o exercício é para o corpo”. Função da escola, em todos os seus níveis, e atendendo à natureza do que cogita. Pois não é o mesmo ler um texto de literatura, de ciência, ou de filosofia. Cada qual exige uma atitude específica, além do conhecimento pertinente. Sobretudo, quando a leitura, a mais que de uma frase, refere-se a um livro, uma vez que como diz o provérbio iidíche: “Livro aberto é um cérebro que fala; fechado um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora”. Expressa bastante a grande complexidade do ato de ler, quando vivenciado em sua plenitude. Ler, portanto, além de importância intelectual, tem uma conotação afetiva. É o prazer do texto a que uma das maiores autoridades contemporâneas no assunto, o semiólogo e crítico literário Rollan Barthes dedicou notável estudo (“Le Plaisir du Texte”). É por essa razão que Marcel Proust tenha dito: “A leitura é uma amizade”. Leia-se, pois, e muito, enquanto há livros. Leia-se pois, como disse, a boa leitura; e se despreze a má. A primeira enobrece, a segunda, degrada. Como diz o provérbio da Itália: “Não há pior ladrão que um livro ruim”. Ao invés de acrescentar algo de bom ao leitor, retira-lhe benevolência, causa malefício. Afinal, ler é uma grande aventura do Homem. (*) É MÉDICO

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