Opinião
OS N�O PRATICANTES
O censo 2010 do IBGE traz novidades sobre a religiosidade do país. Além da confirmação do contínuo aumento na proporção de evangélicos, mostrou pela primeira vez uma diminuição do número absoluto de católicos. Duas imagens surgem então em minha cabeça, faraônicos templos protestantes repletos de fies a louvar ao Senhor, enquanto igrejas vazias são caridosamente poupadas do abandono por beatas pingadas a ocupar espaçadamente seus bancos. E não se trata de uma imagem do futuro. A presente sensação de que os católicos já são minoria, há algum tempo, tem explicação conhecida. É que a quantidade de pessoas que se dizem religiosas é muito menor do que as que realmente são. Ai entra em cena um brasileiro muito famoso, o católico não praticante. Não que o presbiteriano, o espírita, ou até o islamita relaxado não existam, mas os seguidores de Bento XVI nessa situação são tantos que não há porque se preocupar com perdas no rebanho. Trazer as ovelhas perdidas de volta é complicado, mais fácil reanimar as que ficaram com padres popstars. Mas não se iludam, religião não é coisa tão séria assim. Fazer alguém mudar de religião é difícil, mas possível. Impossível mesmo é fazer alguém mudar de time. O futebol tem liturgia mais sagrada. Virar a casaca é pior que chutar a santa, não dá cadeia, mas dá inferno. Por isso, títulos e conquistas não mudam o tamanho das torcidas em curto prazo, só no berçário é que se converte um torcedor. No futebol não existe papa. Nem na época da santa inquisição sua autoridade seria suficiente. Nem os presidentes nucleares de hoje, nem os generais romanos de outrora, nunca houve nem haverá poder suficiente para transformar, por exemplo, flamenguista em vascaíno, ou vice e versa. Se atirado aos leões, o vascaíno prefere morrer a virar flamenguista, mas não sem antes gritar: ?Sport Recife campeão de 87?. Já o rubro negro, corre e espontaneamente coloca a cabeça dentro da boca do felino, para que até na morte, seja vice o cruzmaltino. As pesquisas de torcidas também sempre trazem as mesmas informações irrelevantes sobre quantidades totais. Não nos iludamos com os milhões que se declaram companheiros de paixão, entre eles abundam os que se manifestam apenas para evitar o preconceito, porque ser ateu no Brasil até vá lá, mas não ter time é inadmissível. Foi isso que Ronaldo, o Fenômeno, conseguiu no Corinthians, converter os torcedores não praticantes.