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Opinião

A mis�ria n�o � um bem cultural

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Recentemente, ao subir na favela carioca do Cantagalo, um badalado escritor indiano teria declarado que ?o mercado imobiliário é a maior ameaça às favelas do Rio?. Falhas de interpretação à parte, é verdade indiscutível que cresce uma visão ideológica, míope, que apadrinha áreas de moradia de baixa renda como uma espécie de ?bem cultural? e se opõe a quaisquer mudanças que venham a comprometer os padrões de miséria e promiscuidade estabelecidos nesse tipo de comunidade. O intelectual indiano em questão, turista nada acidental pela favela de Cantagalo, se referia, aparentemente com certo desgosto (pelo relato de repórteres), às interferências ?estranhas? naquele sítio, como o elevador que serve como meio de transporte morro acima e a presença ?invasora? da polícia ?pacificadora?. Atento à fantástica vista, o escriba teria refletido para os seus cicerones que ?com a facilidade no acesso e a maior segurança após a pacificação, os preços vão disparar?. Em verdade, o indiano poderia não estar lamentando, muito menos protestando, mas apenas constatando um processo de mudança social na ocupação do solo urbano, com a valorização imobiliária transformando a habitação elementar em um bem prioritariamente dotado de valor de troca em lugar do valor de uso. Incrementados os serviços, e estabelecido um mínimo de segurança pública numa área como as das favelas do Rio de Janeiro, ulula que os morros cariocas transformar-se-iam social e economicamente. O primeiro beneficiário dessa mudança seria o proprietário do barraco, lógico. E nessa toada, qualquer favela da Cidade Maravilhosa pode virar área chique, pois em sua maioria é fruto da ocupação de área privilegiada em termos naturais, paisagísticos e da interação ao centro urbano. Mas há quem considere a erradicação das habitações miseráveis como um pecado mortal, numa destruição de um bem cultural intangível. Esse tipo de miopia se manifesta em todo mundo e, em Maceió, por exemplo, pode ser acompanhada nas muitas manifestações contrárias à relocação dos moradores da favela de Jaraguá.

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