Opinião
O QUE � QUE FAVELA TEM?
O Brasil já nasceu com a peja de exótico, basta ver a carta de Caminha, onde o sujeito se perde admirando a sensualidade das nativas. Razão de sobra para a união das raças e a mais ampla permissividade sexual a ponto de Barlaeus dizer que ?abaixo do equador não existia pecado?. Os novos brasileiros aprenderam primeiro o Tupy para, muito tempo depois, serem obrigados, por lei, a falar a língua lusitana. Poucos países tiveram uma cultura tão diversa quanto a nossa. E raríssimos conseguem conviver com essas diferenças tão bem. Se há um tema que ainda rola no turismo externo é a paisagem brasileira com seu povo, seus costumes, sua culinária, sua cultura popular e, não tão recentemente, as favelas. Afinal, quantos pintores brasileiros conhecidos lá fora não se inspiraram nelas? E quanta cultura não se formou ali mesmo? E o samba? E os maiores nomes da música popular brasileira? Quanta música não trazia refrão de ?favela?? Que, aliás, o Adoniram Barbosa começou chamando de ?maloca?, que é o nome de uma habitação indígena. De onde o Brasil criou a palavra ?maloqueiro?, que hoje muito mais do que um habitante de maloca, se configurou como ?marginal?? Mas o certo é que a ?saudosa maloca? virou samba. Não é sem razão que os visitantes ilustres incluem nos seus passeios uma visita a alguma favela. No Rio de Janeiro, vem o caso mais emblemático: a Rocinha virou favela da moda. Todo gringo agora quer morar lá. A questão da Favela de Jaraguá é um caso muito complicado porque não só envolve vontade política, como a própria política fomenta os desacordos. No meio de tudo isso está uma população, que desde a construção do porto, quando a maré recuou e abriu o espaço, ali se refugiou e começou a viver do pescado. O lugar poderia se transformar numa agradável e exótica vila de pescadores, contribuindo para que Jaraguá não seja transformada num bairro fantasma que só existe à luz do dia e à noite só tem morador de rua. A exemplo do Pontal da Barra, que se tornou um lugar de referência turística para Alagoas, a Favela de Jaraguá poderia ser este mesmo atrativo, vizinho ao Porto de Maceió, se transformada numa vila de pescadores, ao modo de tantas vilas que se vê na Europa, sobretudo na Itália, com casas coloridas e roupas estendidas no varal. É claro que um pensamento humanista e ingênuo feito o meu não é o mesmo dos interesses transversais que velam o assunto todo esse tanto tempo.