Opinião
Maternidades sob o caos
Num passado nem tão remoto assim, os partos eram realizados nas residências das parturientes, mormente atendidas por parteiras. Apenas quando algum problema era detectado, um médico era chamado. Isto há menos de um século. Antanho do século 19, desde os tempos imemoriais, dava-se à luz nos mais inusitados lugares, buscando o melhor aconchego disponível; uma manjedoura, há dois mil anos, foi elevada a solo sagrado por ter sediado um nascimento sob o lume da estrela-guia. Isto é passado. No presente, pelo menos desde meados do século 20, o termo maternidade passou a designar hospitais especializados em apoiar o ato, simples e supremo, de dar à luz. Hoje, não se concebe, em situações normais de cidadania, que um parto seja realizado alheio à assistência médica adequada. Verdade é que a vinculação da maternidade ao conceito tecnológico tem gerado equívocos e estimulado vícios, como o uso da cesariana como processo prioritário para o nascimento. O parto em casa volta a ser propagandeado em contraposição à cesariana, apropriada apenas para casos específicos. Porém, esse caminho de volta não pode ser confundido com retrocesso ou saudosismo. Pelo contrário: nos tempos atuais, este ato precisa ser acompanhado por um aparato de profissionais, preservando a saúde e as vidas da parturiente e do bebê. Nos dias em curso, em Alagoas, vivemos a iminência do regresso em massa ao parto doméstico não como expressão das concepções naturalistas, mas em decorrência de o poder público não ser capaz de oferecer leitos em maternidades dignas deste nome. Apesar dos paliativos, a superlotação tem sido recorrente nas maternidades públicas. Pioneira neste segmento, a Maternidade Santa Mônica, malgrado a excelência de seu corpo de profissionais da saúde, vive permanentemente saturada. Endereço mais recente, a Maternidade Nossa Senhora da Guia teve as portas cerradas ainda no início de suas atividades e o Hospital Universitário também se vê em situação de excesso de demanda. Este é um quadro que precisa ser revertido, sob pena de um grave retrocesso na cidadania alagoana.