Opinião
LUIZ GONZAGA
Em 2 de agosto de 1989 desaparecia aquele que foi chamado o ?Rei do Baião?. Seu pai, sanfoneiro e consertador de harmônica, ensinou-lhe cedo os primeiros acordes do fole lá em Exu, cidade simples e humilde do interior pernambucano. O rebento foi crescendo naquele clima sertanejo e assimilando os ritos e costumes de um povo alegre e sofrido com as constantes enchentes e secas que sempre caracterizou aquela gente ? e outras coisas mais. Gonzagão trazia dentro de si aquilo que falta a muita gente boa: Criatividade. Ele sentia tudo aquilo que via e ouvia dos mais antigos e necessitava tomar forma, mas não era fácil ? termo que sempre pronunciava ? passar tudo aquilo para o papel, para a melodia, os termos. Surge Miguel Lima, seu primeiro compositor e incentivador, grava Dança Mariquinha, seu êxito em 1945. Nos pampas, o catarinense Pedro Raimundo fazia sucesso com seu traje espalhafatoso de bombacha e botas alongadas, e ?Lua? pensou: ?Por que não posso trajar-me de cangaceiro, típico do homem nordestino?? E assim foi seu início auspicioso. No Rio de Janeiro, o sanfoneiro tocava nos cabarés para sobreviver, quando pelo seu reconhecimento ? às vezes ignorado por alguns que achavam que seu desempenho estava assustando meio mundo de gente ? é convidado para gravar sua primeira música em solo de sanfona, Véspera de São João (1941), na RCA Victor, tida então a melhor do país. Foi um pulo para No Meu Pé de Serra em parceria com Humberto Teixeira, e posteriormente Vem Morena com Zé Dantas. Seguiu em frente e nos deixou um legado que nunca fugia das origens das raízes nordestinas, ressaltando em dezenas de suas músicas a carência de uma melhor assistência do governo federal, e para tal lutou muito pela redenção de seu querido Nordeste, torrão tão discriminado pelos sulistas (São Paulo já tentou separar?se do Brasil). Como já dizia o poeta, Luiz Gonzaga não morreu, nem a sanfona dele desapareceu... Não morreu porque sua obra melódica é imortal; o legado que nos deixou foi muito vasto e extenso de grandes proporções mesmo. Aonde quer que estejamos ao ouvirmos o toque de um fole, mesmo que seja de um ?pé de bode?, lembra-nos com imensa saudade de sua alegria esfuziante, de seu carisma. Medito e fico regozijado e envaidecido, é que nos idos de 1981, em entrevista a mim concedida na terra de Tobias Barreto, o senhor me incluiu no rol de seus amigos.