Opinião
PERNAS, PRA QUE TE QUERO?
Consumimos comida orgânica, evitamos os alimentos industrializados, tentamos parar de fumar. Afastamos ao máximo as crianças da vida virtual, menos televisão e videogame. Queremos ar puro. Sabemos o que temos que fazer. A busca por uma vida mais saudável e natural parece o objetivo de todos. Visando uma vida mais longa e mais feliz, estamos atentos à circunferência da barriga; à quantidade de bebida; ao tamanho do estresse; lutamos para manter as amizades. A rotina é tão dura que terminamos deixando de fazer o que nascemos para fazer. A correria é tanta que nos esquecemos de correr! O corpo humano foi feito para se mexer. Temos pena do passarinho na gaiola que não pode voar. Por que, então, não temos pena de nós mesmos, em nossos minúsculos apartamentos e escritórios, em nossos carros e escadas rolantes? Tristes devem ficar os urubus quando nos olham. Celebrando as Olimpíadas de Londres, uma das maiores revistas médicas do mundo, a Lancet, publicou um edição inteira sobre os benefícios do exercício físico. Analisando centenas de estudos, eles chegam a conclusões assustadoras: estima-se que no mundo ocidental um em cada três adultos e impressionantes quatro a cada cinco crianças não praticam a quantidade de exercícios recomendada. Ainda mais surpreendente é a estimativa de que 10% de todas as mortes prematuras são causadas pela inatividade. É praticamente o mesmo número de mortes causadas pelo cigarro e pela obesidade. Os Jogos Olímpicos são uma boa metáfora para um fenômeno típico do capitalismo atual: a terceirização. Podemos contratar terceiros para fazer tudo por nós: gerenciar a casa; cuidar dos filhos; comprar nossas roupas. Existem até serviços que lhe arrumam uma amante se você estiver sem tempo. Ao invés de uma competição de pessoas normais, atletas amadores, como queria o Barão de Coubertin, os jogos, hoje, são um desfile de profissionais. Pagamos milhões para eles se quebrarem todos, correndo e pulando, enquanto ficamos imóveis, enterrados no sofá, assistindo. Estranha sociedade. Tememos acima de tudo a incapacidade, a perda da independência na velhice, a falta de liberdade para ir e vir. Brandimos as vezes que preferíamos morrer a ficar presos em uma cadeira de rodas. Rezamos para que nossas pernas sejam fortes e firmes, tudo isso para ficarmos eternamente sentados.