Opinião
O DIABINHO DA FALSIDADE
Quando o advogado de Roberto Jefferson afirmou no STF que o presidente Lula ? segundo o ministro Marco Aurélio, homem safo e doutor honoris causa em várias universidades do mundo ? não só conhecia, como era o comandante do mensalão que fluía sob suas barbas, ele estava dizendo o que Nelson Rodrigues chamava o ?óbvio ululante?. Só rejeita isso quem quer tapar o sol com peneira. Não precisa ser jurista para saber que aquela colocação do advogado não altera o rumo do processo no Supremo e muito menos ameaça o ex-presidente, mas coloca para quem se interessa pela moralidade e bons costumes, as coisas no devido lugar. Sobre saber a verdade, C.I. Lewis alertava para uma tendência suicida da consciência: ? Não há razão alguma, a priori, para se pensar que vai ser bom descobrirmos a verdade?. Para Montaigne, que exerceu uma influência, em sua época, semelhante à de Freud hoje, os sentidos enganam a mente, e a mente os engana de volta. Ambos disputam quem trapaceia o outro. E, mais, a razão é um dos diabinhos da falsidade a nos descaminhar. Sua presença íntima também nos habilita a enganar a nós mesmos. Ele afirmava ainda que a ignorância, a inverdade, o não se importar se o mundo inteiro é ou não uma mentira pode ser fonte de felicidade e contentamento para a espécie humana. Podemos ser enganados, ser vítimas de falsidade, e ainda assim nos deleitarmos com a existência. Seu pensamento tornou-se o coup de grâce de todo o mundo intelectual. Consubstanciando, a Folha de S.Paulo de domingo passado trouxe um levantamento dramático: a grande maioria da população consultada acredita que os réus do mensalão são culpados, mas não acredita que possa haver punição e muito menos prisão: é o descrédito das instituições. Provavelmente, alguns dos eminentes ministros do STF não compartilham essa preocupação. É possível, como afirmava Montaigne, que a possibilidade de se enganarem, serem vítimas de falsidade consentida ? mormente os ministros Lewandowski e Toffoli ? e de, com isso, propagarem a impunidade de forma brutal no País não os aflija. É provável, ainda, que Lula, receoso só com a sorte dos companheiros, não esteja preocupado nem com falência das instituições nem com a consagração da sensação de que o crime compensa.