Opinião
ANTES E DEPOIS
Tenho que estudar. Tempo para o lazer não há. Não existem amigos, namoros ou família, nada me tira do foco. Não existe fim de semana, não existe feriado. Abro mão de todos os prazeres pelo meu objetivo. São mais de 16 horas de estudo por dia. São cursinhos e simulados. São dias de angústia e noites mal dormidas. Existe ainda a horrível sensação de continuar sendo sustentado pelos pais, enquanto todos os meus amigos já trabalham e ganham dinheiro. Logo eu, que era a esperança da família. Sem falar nos olhares de desprezo: ?Não era o melhor aluno da turma? Por que nunca foi aprovado??. Tudo isso é irrelevante, se eu conseguir o emprego dos sonhos. Ele tem aposentadoria integral e se um dia eu ficar doente, continuo recebendo. Se morrer, meus entes queridos terão direito a pensão, quero uma vida sem preocupação. Terei férias e feriados com descanso garantido, diferentemente do que acontece na iniciativa privada, onde sei que os direitos só existem na teoria. Vi amigos meus se tornarem profissionais preparados e competentes, esforçados e abnegados, deram o sangue pela firma, mas mesmo assim foram demitidos, porque o novo chefe tinha outro preferido ou porque a empresa faliu. Quem quer uma vida dessas? E além de todas essas vantagens, terei o salário X. Gostei dele, se não, não teria nem feito o concurso. Se pela graça de Deus eu for aprovado, terei garantido pelo resto da vida a remuneração que escolhi. Privilégio para poucos. Tudo vale a pena, pelo salário X. Saiu a lista, passei! Festa e rojões, choro e emoção. Venci milhões de outros concurseiros, a relação candidato/vaga era de centenas para um. Meu sonho se realizou. Agora sou um funcionário público. Ultraje. Ridículo, onde está o meu nariz de palhaço? Juntar-me-ei aos meus companheiros na luta. Não podemos aceitar essa situação. Marcharemos por Brasília, pararemos o trânsito, faremos operação-padrão. Não haverá fiscalização, liberação ou atendimento. Processos prescreverão, pacientes morrerão e criminosos farão a festa nas ruas. Não importa, vamos parar o Brasil. Dois; três; quatro meses de greve; não interessa, não desistiremos. Continuarei em casa, de braços cruzados em apoio aos colegas que estão nas manifestações, até que nossas reivindicações sejam atendidas. Tudo vale a pena, afinal de contas, é impossível um ser humano viver dignamente com o salário X.