Opinião
ANTES E DEPOIS DA PRIMEIRA JU�ZA DE ALAGOAS
Hoje será publicado no Diário da Justiça Eletrônico o ato de aposentadoria da desembargadora Nelma Torres Padilha que, atualmente, ocupa o cargo de vice-presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas. Tratar-se-ia de um mero ato administrativo, não fosse por um detalhe: o fim da atividade judicante da primeira juíza do Estado de Alagoas. Thereza Grisólia Tang, nascida em São Luiz Gonzaga /RS, foi a primeira magistrada do Brasil nomeada, em 1954, como juíza substituta da 12ª Circunscrição Judiciária de Criciúma/SC, que ostentou a condição de única mulher no Judiciário catarinense por quase 20 anos, já que somente em 1973 outra Thémis, de carne e osso, conseguiu desbravar o machismo imperante à época. Em plena ditadura militar, coube à viçosense Nelma Torres Padilha a missão de desbancar os preconceitos dos marechais e coronéis de Alagoas: no mês de junho de 1976, foi nomeada pelo governador Divaldo Suruagy como a primeira mulher a integrar a magistratura estadual, passando a exercer suas funções na paradisíaca comarca de Porto de Pedras, decorridos 159 anos da emancipação política do Estado (1817) e 263 anos da criação da Comarca de Alagoas (1712). Vocacionada, fez da jurisdição um sacerdócio, sacrificando a vida pessoal para se dedicar, quase que exclusivamente, à Justiça. Com ela estabeleceu uma relação da extrema fidelidade, compartilhando anseios, angústias e o sentimento do dever cumprido, calcado no livre convencimento motivado de suas convicções pessoais e na independência funcional de cada ato estatal que levou a termo. Decerto que, ao passado, devemos render o nosso presente, mas é justo reverenciar todos aqueles que combatem a realidade posta, enfrentando as forças sociais e políticas que se protraem em certo tempo e espaço, por acreditarem em uma realidade suposta, porém mais livre, justa e humana, porque tais pessoas plantam a esperança, estabelecem novos valores, cindem o tempo. Longe de, simplesmente, representar a singeleza da mulher, Nelma Padilha é história viva, que desafia a realidade; é dessas pessoas que cindem o tempo. Foi a partir do seu ingresso que a Justiça se viu diferente, menos indiferente, mais doce, delicada e atraente. E, justiça seja feita, a magistratura deve a ela todas as vênias. Para as juízas alagoanas somente haverá dois tempos: antes e depois de Nelma Padilha.