Opinião
O ovo da serpente quer ser esquecido
Como nunca dantes na história deste País, um julgamento tanto chamou a atenção da mídia. A cobertura da Ação Penal 470, rotulada de ?Mensalão do PT? é, certamente, a mais longa campanha de opinião desenvolvida pela imprensa brasileira. O veredicto inicial, apontando a condenação do primeiro bloco de réus, não causou surpresa. Mas se faz importante prestar a devida atenção para manipulações interpretativas feitas por determinados grupamentos partidários sobre essas inquestionáveis decisões do STF. O Supremo Tribunal Federal, de forma transparente e irretocável, está a fazer seu trabalho, sem temer o gosto de sua função, descrita pelo ministro Cezar Peluso como o ?amargor sentido ao condenar?, sabor acre ressaltado pelo presidente da Corte, ministro Ayres Britto, como sendo ?um gosto de jiló, de mandioca rocha, de berinjela crua, ou seja: algo de vinagre, algo de fel que fica na boca do magistrado que se vê na obrigação de condenar alguém, sobretudo, à pena de reclusão?. Justa é a crítica dura aos responsabilizados pela existência do que se chamou de ?Mensalão do PT?, mas se faz indispensável estender essa mesma crítica ética a toda e qualquer ocorrência de idêntico perfil. Isto posto, é uma agressão à memória contemporânea brasileira a pressão desenvolvida por grupamentos partidários no sentido de fazer com que a condenação dos petistas e seus aliados venha a fazer sumir a lembrança sobre o ?mensalão? original, criado para subsidiar a aprovação da Emenda Constitucional n° 16, de 4 de julho de 1997, por meio da qual foi introduzido o instituto da reeleição (para o Poder Executivo) no Brasil. Num expediente carregado de cinismo, os pais e mães do mensalão da reeleição, aves cianóticas de canto estridente cacarejam apontando para o delito alheio com o objetivo de se autoanistiarem de seu próprio pelanco indesejável, chocado e saído do ovo da serpente há 15 anos. Este momento cívico é propício para se levar adiante a lição que está sendo dada pelo STF e, mesmo que determinadas iniciativas criminosas já tenham prescrito, serem condenadas eticamente por todos os brasileiros. Sem hipocrisias.