Opinião
POL�TICA COM DIGNIDADE
São, no mínimo, irresponsáveis as declarações do presidente do PT, sr. Rui Falcão, reagindo à condenação do deputado João Paulo Cunha. Não por chamar de suja e reacionária a elite, mas ao dizer que ela ?ainda? dispõe da mídia conservadora, passando pelo Judiciário, para tentar derrotar sua facção. Não bastasse, ameaçou: ?Não mexam com o PT porque quando é provocado, o PT cresce e reage?. Deixa clara sua abominação pelo Estado Democrático de Direito, onde se incluem uma imprensa livre e os três poderes constituídos. Pela vontade do sr. Falcão, nem mídia nem Judiciário deveriam existir, a não ser sob seu controle, como tenta fazer o governo de seu partido no Parlamento. O ex-deputado Gabeira compara a ditadura ao governo Lula: ?Uma neutralizou o Congresso pelo medo; o outro, pela mesada?. Porém, o mais revoltante foi o então presidente Lula, rasgando a lei, declarar que o dinheiro usado era advindo de outro crime, o ?caixa dois?. E essa sua atitude vem, desde então, despertando indignação em muitos setores da sociedade. Em discurso, ao receber o Prêmio Empresário-Liberdade, o CEO das Lojas Renner, José Galló, disse que ?para quem trabalha e vive corretamente, vota esperançoso e recolhe todos os tributos é muito duro assistir ao jogo da ilegalidade assumida?. Já o escritor e letrista Nelson Motta tenta imaginar o presidente Obama dizendo: ?Ah, é só caixa dois?. ?Nem Berlusconi ousaria?. Pelo lado técnico, o ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, disse ter ficado estarrecido. ?Uma autoridade fiscal chegaria ao limite da perplexidade ao ouvir de um contribuinte que praticara crime de sonegação por omissão de receita, por exemplo, a justificação de que fora tão somente um cândido exercício de caixa dois. Esse mau contribuinte poderia dizer que se inspirara em discurso de autoridade?. E mais: ?O que espanta é ver políticos e advogados festejarem o crime do caixa dois, diante da possibilidade de prescrição. É a banalização da indecência?. Com a condenação, até agora, pelo STF, de vários envolvidos no mensalão, cito o brasilianista Richard Moneygrand, em carta ao antropólogo Roberto da Matta: ?O que está em julgamento não é apenas um ponto de vista político no sentido trivial da palavra, mas o valor da crença da igualdade perante a lei. O que está em jogo é a questão de fazer política e exercer o poder com responsabilidade e transparência. No fundo, disputa-se o resgate de fazer política partidária com dignidade?.