Opinião
A via tortuosa do transporte coletivo
Vinte centavos de real: eis aí o pomo da discórdia acerca do preço da passagem de ônibus em Maceió. Pelo divulgado ontem, vale desde a zero hora de hoje o valor de R$ 2,30 para a tarifa dos coletivos na capital alagoana. Motivo de disputa judicial, a passagem custava até a meia-noite da quarta-feira R$ 2,10. Esta é uma daquelas pelejas de resolução complicada, pois trata-se de uma briga onde todos, a princípio, têm razão. Razões têm os usuários, pois, apesar da diferença pouco significativa em termos de uma passagem, 20 centavos multiplicados por dois (ida e volta), depois por 30 (dias do mês), depois por dois ou quatro (a depender do número de vezes que se usa o coletivo por dia), depois por 12 (meses do ano), finda em uma conta pesada para quem vive à base de R$ 625,00 por mês. Razões têm os empresários, pois o transporte coletivo é um empreendimento custoso, que exige capital de giro adiposo, imobilização de capital em razoáveis proporções, insumos pesados, altos riscos de danos ao patrimônio (buracos, vandalismo etc.) e altíssimo risco no quesito insegurança pública. Achar que os optantes por este investimento devam apurar menos é ideia que não se sustenta. Razões têm os poderes públicos em buscar soluções que não avancem além da conta contra esses dois contraditórios interesses: dos usuários e dos empresários. Daí serem incontornáveis decisões normativas e judiciais, quase nunca coincidentes, sobre as questões decorrentes de naturais conflitos no sistema de concessões públicas para o transporte coletivo. Difíceis são as soluções para este tipo de pendenga porque a base é contraditória desde o nascedouro, pedra angular na qual se tenta harmonizar os interesses do público e do privado num fazer de conta que o Estado cumpre sua parte (garantindo infraestrutura e sustentabilidade ao investimento privado), de que o lucro empresarial é pecaminoso, e de que ?alguém? garantiria ao usuário uma tarifa de preço independente das imposições do mercado. Nessa via torta nunca haverá empreendimento que se sustente.