Opinião
A triste sina do crime combatendo crime
Certos acontecimentos, mesmo que enraizados numa determinada comunidade, assumem proporções emblemáticas, válidas para todo um país. Este é o caso de um homicídio cometido ontem na cidade de Pindamonhangaba, interior de São Paulo. O morto acudia pela alcunha de ?cabo Bruno? e teve, por mais de uma vez, seus 15 minutos de (muita) fama. Em 1984, ele falou, candidamente: ?Só matei 50?. Disse e posou cingido por um cinturão carregado de cartuchos calibre 12, arma pendente ao lado e camisa aberta no peito. Assim foi para a capa da revista Afinal. Naquela entrevista e em tantas outras, cabo Bruno não contornou as questões colocadas. Mais que confessar, professou sua opção por fazer justiça com as próprias mãos, executando sem remorsos aqueles que considerava ?bandidos sem recuperação?. Ao fazê-lo não foi pioneiro no assumir a tese do ?bandido bom é bandido morto?, mas seria um dos mais explícitos em expor suas ideias e em reconhecer os números de sua ?obra?. Antes dele, brilharam como justiceiros os Homens de Ouro (da polícia carioca), a Scuderia Le Coq e o Esquadrão da Morte, só para citar os mais conhecidos. Se as teses da execução sumária, fartamente praticada por esses grupos tivesse algum fundo de verdade, pelo número de cadáveres produzidos por essas turmas, não haveria mais criminalidade no eixo Rio/São Paulo. A verdade, implacável, prova outra tese: os executores de bandidos transformam-se em bandidos mais ferozes que suas vítimas. A ação letal dos ?justiceiros?, mais das vezes, não passa de iniciativa destinada à conquista do poder no próprio submundo do crime. Cabo Bruno foi apenas mais um exemplo dessa verdade ensanguentada. Réu confesso, foi julgado e condenado a 120 anos ? menos de três anos por alma despachada para o além. Passou 27 anos na cadeia ? algo como seis meses por homicídio. Libertado, reassumiu o nome de batismo, Florisvaldo. Tornou-se pastor. Viveu 35 dias de liberdade, sendo executado ontem por outro ?justiceiro?. O mais perigoso é que haverá quem veja justiça nisso.