Opinião
LOUCURA SOCIALIZADA
Em imperdível entrevista para a revista Veja da semana passada, o poeta Ferreira Gullar resumiu seus pontos de vista com invejável objetividade. Ex-militante moderado da esquerda e carregando a cruz de dois filhos esquizofrênicos, um deles já falecido, certamente, os patrulhadores de plantão vão esculhambar o pobre velho. Falando sobre os hospitais psiquiátricos, resume sua revolta ao conceito de que ?pais de doentes mentais internam seus filhos para deles livrarem-se?. Conclui: ?...esse pessoal pretende amar meus filhos mais do que eu...? O grande vate referia-se à ideia de acabar com os hospitais psiquiátricos. Politicamente orientado pelo PT, um projeto conhecido por ?Lei Delgado? seria, no início deste século, praticamente aprovado por unanimidade. Ai daquele que ousasse discordar. Clima de felicidade se espalharia entre psicólogos, progressistas, pacientes e familiares que não aceitavam sua condição de psicóticos. A sexóloga Marta Suplicy tinha espasmos de satisfação. Mais uma Bastilha havia sido demolida pela força do povo. Era a vitória do proletariado sobre essa asquerosa elite de exploradores ? os donos de hospitais. Médico, ocupando posto no CFM, sem qualquer conhecimento, jurava que os hospitais psiquiátricos eram servis à ditadura. Garantiam haver tortura. O eletrochoque era sinônimo de pau de arara. Não havia como negar: os hospitais psiquiátricos eram réplicas pioradas dos temíveis gulags soviéticos. O rolo compressor dos progressistas ignorou a posição dos professores de Psiquiatria. Àquela altura, as mágoas de um psicopatão de Curitiba, alçado símbolo da iconoclastia psiquiátrica, tinham mais peso do que os argumentos dos mais renomados cientistas. O fato é que os hospitais privados, para os doentes do SUS, estão funcionando de teimosos. Salvo aqueles do Estado, que não pagam impostos, não têm compromissos nem com a folha de pagamentos, tampouco com alimentos e remédios. O valor da diária é humilhante. De honorários médicos acachapantes. Poucos ainda falam em fechar hospital psiquiátrico. Conforma-se o Ministério da Saúde em asfixiá-lo com um pagamento vil. Enquanto isso, aumenta a demanda de pacientes com planos de saúde. Uma curiosidade a registrar: por ironia do destino, parentes de ilustres antimanicominialistas ? quando não eles próprios ? têm apelado para os humildes préstimos dos antigos torturadores.