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Opinião

HOBSBAWM E DUKE ELLINGTON

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Duke Ellington já era um gênio consagrado quando se apresentou em Londres em 1933. Filho de um dentista da classe média alta de Washington, tivera esmerada e erudita formação musical, a qual, somada ao virtuosismo, lhe propiciara o reconhecimento como maior talento musical de sua geração:compositor de jazz e suítes clássicas, era hábil pianista e maestro incomparável. Todavia, era negro e a temporada europeia foi uma fuga temporária das atribulações do racismo americano. Na plateia londrina estava o jovem Eric Hobsbawm, já um crítico severo do imperialismo norte-americano, mas também admirador incondicional de uma de suas principais manifestações culturais, o jazz, levando-o a tornar-se crítico de jazz na revista New Statesman,onde sob o pseudônimo de Francis Newton (um trompetista comunista de Billie Holiday) escreveu farto material,o qual, depois coletado, formou a obra A História Social do Jazz. Comunista militante, acreditou que o sistema capitalista se acabaria com a crise de 1930. Estava errado. Contemporâneo de eventos limítrofes do comunismo, como a Primavera de Praga e os crimes de Stalin, até o fim da vida declarou-se comunista; apregoava sempre que podia que o comunismo, embora não se consolidasse, tinha tornado o capitalismo mais humano. Incredibile dictu, nunca conseguiu publicar uma obra na União Soviética. Arguto e atento, chegou ao futebol atual, quando escreveu ser esse uma síntese da globalização: com equipes multinacionais, sem identidade, mas com xenofobia nas arquibancadas. Suas obras voltaram a ser ainda mais apreciadas e discutidas nos últimos tempos, com a crise de 2008, que preconizou marginalmente em questões como o enfraquecimento do Estado. Deixou sem respostas questões cruciais: o socialismo seria um sistema compatível com a democracia? Existiria compatibilidade entre o comunismo e o perfil do ser humano descrito por Freud em O Futuro de Uma Ilusão? O legado de Hobsbawm como maior historiador do século 20, entre outras, deixa desafiantes questões: como a desigualdade social crescente; as muitas injustiças sociais e a necessidade impostergável do ser humano de tentar minorá-las. Só o tempo poderá dizer se, além disso tudo, ele tinha alguma possibilidade de estar certo em suas soluções. Mas, inquestionavelmente, ler suas obras escutando Ellington ainda será por muito tempo um prazer garantido.

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