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A. SÉRGIO BARROSO * Só uma hecatombe política impedirá a eleição de um ex-metalúrgico e nordestino como presidente da República - Lula. Trata-se, tudo indica, do maior avanço da consciência democrática do nosso povo, em toda história do Brasil; espécie de ?vendeta? a uma trajetória mais que secular de injustiças e humilhação à nação, no fim das contas. Mas tal fenômeno diz principalmente respeito à avalanche de insatisfação popular contra oito anos de montanhas de mentiras. Assim como de uma subestimação à experiência de lutas populares, antes de tudo; e a tantos sonhos acumulados, sempre frustrados, entregues ao caráter - propriamente dito ? retardatário e predador da burguesia brasileira. Costumes, ideologia e reprodução da sociabilidade. Claro. Marx escreveu em granito: ?As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes, ou seja a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual? (1845-6). Note-se: novo espírito, novo humor, novo realismo, novo hedonismo, novo teatro, novo partido, novo sindicalismo, nova mulher...enfim, tudo refletia a modernidade sob o olhar radiante do escritor Holbrook Jackson (?A década de 1890?), exatamente sobre a efervescência da Grã-Bretanha moderna. Curioso e emblemático: quatro anos antes, o pernambucano Joaquim Nabuco (escritor, diplomata e parlamentar) nada enxergava de parecido, de ?novo?, ou ?moderno?, no sentido de Jackson. Do outro lado do mundo, dizia ele (1886) que a escravidão tinha se apoderado ?do movimento abolicionista por meio de uma simulação, e (o que) conseguiu em nome das nossas idéias!?. Lá, os trustes, o telefone, o motor a combustão, a química, a urbanização acelerada, um turbilhão artístico. Aqui, uma lacrimosa eutanásia da escravidão de trezentos anos, transplantada, tornada quase ?cerebral?. Disse também Marx que, uma vez constituída a grande indústria, todos os povos iriam viver sob a força das ?leis impiedosas? do capitalismo (1878). Sim Dr. Karl, nós bem soubemos o significado de um capitalismo nascido a fórceps. Foram cerca de 4 milhões de imigrantes, entre 1888-1930, de maioria italiana, que os ricos e a União mandaram buscar para deixar morimbunda uma multidão de negros escravos. Ou a lei quando é lei do capital! Após sete décadas de capitalismo ?real? ? tempo histórico minúsculo, não se pode negar -, amplos setores da grande burguesia brasileira mudam de navio; ou trocam de bússola, pulam do barco, tanto faz. Não se trata agora, de nenhumamaneira, da revolução social batendo às portas. De um lado, há uma sensação da derrota humilhante de um projeto nacional de desenvolvimento, que prosperou em Getúlio, Juscelino e Jango; seguindo em parte com os militares, sim, reproduzindo as desigualdades, de contra-face dependente, e às custas do que todos sabemos. Por outro lado, aparece a idéia-força em se constituir um ?novo contrato social?, numa espécie de social-democracia periférica. Acontece ser o buraco aí mais embaixo, embora comece bem acima. Começa exatamente em quem tem o tão famoso dólar para pagar um ?pendura? do nosso tamanho, continental. Até agora não passou de sonho a existência de uma ?social-democracia? no capitalismo dependente. Mas nós sempre viveremos sonhando, e lutando em quaisquer metamorfoses. (*) É MÉDICO

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