Opinião
VOCA��O E SACERD�CIO
A mulher gritou: ? Estou vendo minha morte!. Mas eram apenas os ossos dos dedos de sua mão. Pela primeira vez na história da humanidade alguém conseguia ver o interior do corpo humano. Roentgen,que acabara de descobrir acidentalmente os raios-X, usara-os experimentalmente na pessoa que estava mais próxima, sua esposa. Era ano de 1895,logo aquela descoberta propagou-se pelo mundo. Poucos meses depois, em Paris, Marie Curie descobriu a radioatividade. Alguns anos depois, em Chicago um jovem médico, Emil Grubbe, utilizando um tosco tubo de raios-X tratou pela primeira vez, com sucesso, uma mulher, Rose Lee, portadora de um câncer de mama recidivado após mastectomia. Logo os rústicos tubos de raios-X e os elementos radioativos tornaram-se a principal forma de tratar vários tipos de câncer. Clínicas de radioterapia se disseminaram pelos EUA e Europa.O êxtase chegou ao ponto de se acreditar que as radiações ionizantes podiam curar todas as formas de câncer. Com o tempo, observou-se que vários casos controlados localmente por radiação se disseminavam pelo corpo, levando ao óbito. Nos anos cinquenta, adveio a quimioterapia, configurando relevantes avanços. A radioterapia teve evolução tamanha que hoje é o setor da Medicina que mais avançou tecnologicamente. Mas embora exista farto arsenal terapêutico disponível contra o câncer, o envolvimento do médico com os pacientes ainda é fundamental. Eles exigem de nós, atenções e cuidados especiais: paciência, apoio e solidariedade.Temos que gerir ainda os baixos proventos profissionais; as restrições de recursos dos governos e dos planos de saúde que querem ganhar sempre mais. Pedro Nava sintetizava ? Medicina antes de mais nada é conhecimento humano. E ele está tanto nos livros de patologia e clínica, como nos da obra de Proust, Falubert, Balzac, Rabelais, poetas de hoje, de ontem, nos modernos como nos antigos?.Assim, nossa prática diária é um eterno aprendizado humano. Nenhuma outra atividade vive em contato tão próximo com o ser humano nas suas horas mais críticas.É uma profissão apaixonante, que para realizar, exige sim vocação e alguma coisa parecida com sacerdócio. O regozijo com o restabelecimento da saúde de um enfermo grave é uma sensação especialíssima, de impossível descrição.Somente aqueles que realmente amam a Medicina podem dimensionar essa emoção que o tempo não apaga.