Opinião
Esperteza e anti-cidadania
Trabalhar em prol da união entre objetivos comerciais e sociais nunca foi coisa fácil. Até por esta evidência, tal política deve sempre ser minuciosamente acompanhada e calibrada; até porque recursos públicos e direitos do cidadão estão em jogo. Um dos ramos mais espinhosos para o estabelecimento de políticas públicas nesse amplo setor pode ser identificado no caso do comércio popularmente rotulado como ?camelô?. Mormente utilizado como sinônimo de ?comércio ambulante?, tem se demonstrado como o antônimo do conceito de mobilidade. A cada dia essa forma de comercialização se caracteriza pela luta renhida dos ?camelôs? por pontos fixos para sua atividade. Esses locais são, invariavelmente, encravados nos mais concorridos fluxos de circulação de pedestres. O povoamento avassalador desses corredores públicos se constitui num condenável processo de ?privatização? de áreas cujo uso coletivo é essencial para a maioria da comunidade. Essa ocupação, invariavelmente, segue o mesmo processo: inicia por meio da comercialização ambulante, móvel, como forma de driblar a fiscalização; no segundo momento sobrevém a redução drástica dessa mobilidade com a usurpação prática, incontornável, do ponto irregular no qual se fixa o comerciante. E aí está ampliado um problema social de difícil (e onerosa) solução. O caso do Shopping Popular de Maceió é um grande exemplo desse perigo. Ali, foram investidos expressivos recursos públicos em benefício do restabelecimento da função própria de alguns dos principais corredores de trânsito na Capital alagoana; e essa solução, rapidamente, passa a ser inviabilizada exatamente por uma parcela daqueles que foram os privilegiados por esse investimento direto: Os ?camelôs? premiados com boxes situados no mais novo e moderno centro de vendas, criado especialmente para eles. Deliberadamente, vários empreendedores estão tentando transformar o box recebido como ponto comercial em mero depósito enquanto, simultaneamente, opera a reocupação indevida do espaço público anterior. É a mais pura, e velha, malandragem. O poder público precisa manter-se atento e garantir que essa trampolinagem se restabeleça com sucesso.