Opinião
UM CONCURSO E UMA INESPERADA SURPRESA
Escrevendo semanalmente artigos ou crônicas para a Gazeta, faço disso um momento prazeroso, ora no registro de acontecimentos e circunstâncias no enfoque de minha interpretação pessoal, ora na criação estética que envolve lembranças e reflexões, conduzindo o texto à ficção. O fato que vou lhes narrar é deveras surpreendente e singular. Este ano a Sobrames completou 35 anos, oriunda de 1977. E dentro das comemorações alusivas à data foi idealizado pela entidade e pela Academia Alagoana de Medicina a realização de um concurso literário de contos, crônicas e poesia, do qual participaram médicos e acadêmicos de Medicina. O certame teve o patrocínio da Fapeal. O objetivo foi o de descobrir, incentivar e agregar novos valores no campo da arte literária. E, paralelamente, contribuir para o humanismo no desempenho da atividade médica. Por vezes, os concursos apresentam surpresas nos resultados. Examinados os trabalhos pela comissão julgadora, apenas com pseudônimos, após a entrega dos resultados, as entidades organizadoras identificaram os vencedores. Entretanto, aconteceu algo inesperado. Ao realizar a comunicação da vitória àquele que conseguiu o primeiro lugar no gênero poesia, a família informou que o vencedor médico Ciro Alves da Silva havia falecido havia dois meses. Depois do impacto inicial e das dúvidas surgidas, a direção das entidades organizadoras tomou uma decisão: o prêmio (em dinheiro) seria entregue à família do médico que conseguira a classificação. No dia 18 de outubro, Dia do Médico, no auditório do Conselho Regional de Medicina, durante a solenidade comemorativa, foi entregue o prêmio, sob muita emoção da família e dos presentes. Sua filha informou que ele escrevia sempre, amava a literatura, mas nunca publicou seus trabalhos literários por não gostar de exposição pública. Entretanto, acreditara que ganharia o concurso. Como homenagem espiritual, passo aos meus leitores alguns dados do currículo Ciro Alves da Silva. Formou-se na Ufal e fez especialização em pediatria em Recife no Imip. Foi médico da AMI por muitos anos; dirigiu um hospital materno infantil em São Miguel dos Campos; foi secretário de saúde em São José da Laje. Amava tanto seu trabalho que clinicou até um dia antes de seu falecimento. Em vida, tinha um círculo de amigos e clientes dedicados. Na morte, tornou-se um símbolo e um exemplo. Despertou emoções e feriu sensibilidades.