Opinião
RENDA E NAMORO
Falecido na década de 90, Ivon Curi, em declínio, viveria seu último papel na Escolinha do Professor Raimundo interpretando Gaudêncio, um gauchão macho até umas horas. Cantor e ator, emplacou vários sucessos musicais e foi apreciado galã nas chanchadas da Atlântida. Tal qual o personagem do Kit Gay do ministro Haddad, hoje prefeito de SP, batia bola em todas as posições. Morreu de Aids sem nunca haver assumido claramente a multilateralidade sexual. Um dos seus grandes sucessos foi cantando Mulher Rendeira (Farinhada?), canção de domínio popular de pouquíssimos versos, mas que ganhava muita força graças às caras e bocas do saudoso artista. ?Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar?, refrão mais marcante tem tudo a ver com certo período da nossa recente história política. Foi justamente quando dividiram cela os condenados por crimes ?triviais? (assassinatos, roubos, estupros...) e os presos políticos (teóricos, terroristas e simpatizantes). Dessa salutar convivência, teria brotado o Comando Vermelho, organização essencialmente criminosa ligada ao tráfico. Consta haver assimilado técnicas de guerrilha em aulas ministradas pelos presos políticos. Nossos amigos gauchistes consideram injuriosa tal referência. O fato é que, a partir de determinado momento, explodiriam as ações de sequestro, crimes até então, digamos, de uso restrito dos terroristas de esquerda. Não vamos dizer que assaltos a bancos fizeram parte desse curso. É que ambas organizações (terroristas e traficantes) os praticavam à larga mano. No máximo, nesse quesito, houve troca de know how. E assim se passaram os anos. Embora neguem, nossos ?guerrilheiros? tomaram o poder e se transformaram em irretocáveis burgueses. Penteados, trajando ?Armanis?, exalando loção francesa, até escovam dentes, usam desodorantes e trocam de cueca. Os langanhos axilares, fartos e fétidos na época de revolta, graças a Deus sumiram. Gordos saldos bancários e ?apês? em Higienópolis, dentre outros mimos, completam o kit. Como relembra Douglas Apratto, ?a história não se repete, a não ser como farsa?. Temos agora uma tremenda coincidência que nem Rasputin, nem Roberto de Ogum conseguiriam antever. Juntos de novo, compartilhando segredos e sonhos, Beira-Mar, Marcola, Zé Dirceu, Genoino e Delúbio. De quebra, Kátia, Valério e outras pilombetas. O coral do presídio já ensaia o refrão: ?Tu me ensina a fazer renda/ Que eu te ensino a namorar?.