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Uma data que n�o deveria se ater a um dia

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Ontem, como ao longo das últimas três décadas, a Serra da Barriga refloresceu de vida, alegria, protestos, música, dança e tudo mais que tem caracterizado a agenda do dia 20 de novembro. Hoje, provavelmente, fora o trabalho de limpeza da área dos restos das atividades do dia festivo, nada movimentará o outrora glorioso Outeiro da Barriga, endereço da Capital do Quilombo dos Palmares. O morro teve suas construções varridas do mapa em meados de fevereiro de 1694, quando as tropas comandadas por Domingos Jorge Velho arrasaram o local, queimando e demolindo o que havia sido construído, durante praticamente um século, pela insurgência levada adiante por aqueles que se recusavam a ser escravos. Como sabemos, essa história não acaba ali, mas quase dois anos depois, em 20 de novembro de 1695, quando Zumbi teria finalmente sido localizado e assassinado no chamado ?sumidouro da Serra Dois Irmãos?. Durante quase três séculos, o silêncio desceu sobre a saga do Quilombo dos Palmares e apenas nos anos 70 do século 20 a Serra da Barriga foi ?resgatada? como ícone geográfico, assim como 20 de novembro passou a ser uma referência da luta pelos valores negros do Brasil. Uma saga memorável, de valor universal, que naturalmente dá vazão também a mitos de todo tipo, afinal os mitos fazem parte da história. Não é mito, entretanto, o sítio onde essa epopeia negra foi realizada. O que aconteceu, em seus detalhes, é fonte e foco não só para a história, mas para a especulação investigativa, para a literatura, para a ficção. Onde aconteceu, entretanto, é algo sólido a ponto de não se desmanchar no ar. E as duas serras (da Barriga e Dois Irmãos) são um valioso patrimônio da humanidade situado em Alagoas. Mas Alagoas, a cada ano, demonstra que não entendeu ainda a grandeza dessa sua herança negra. Apenas a Serra da Barriga é lembrada em um único dia, 20 de novembro. Este ano, uma cavalgada ousou ligar as duas serras, acrescendo mais um dia ao calendário. Pode ser o descortinar de um novo olhar sobre esse patrimônio alagoano. O futuro dirá.

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