Opinião
RECLAMA��O SURREALISTA
O município é a célula-mãe da estrutura político-administrativa do País. Dele nascem todas as riquezas e para ele deveriam convergir. Se a divisão político-econômica não vem satisfazendo aos anseios dos políticos brasileiros, é uma questão, até certo ponto, surrealista. Simplesmente gritar, quando se lhe aperta o cinto, não me parece a solução. Acabamos de ter eleições para todos os municípios brasileiros. Não ouvi, nas campanhas, quem se insurgisse contra tal situação. Pelo contrário, tanto os que pela vez primeira pretendiam abocanhá-los, quanto os que neles já estavam, lutaram até as últimas forças para elegerem-se. É estranho, pois aquele era o momento oportuno para expor tais dificuldades. Todo o aparato político nacional mobilizou-se Brasil afora para apoiar seus pupilos. Se a Presidente da República não desceu de seu trono, teve as investidas de seu guru e ex-presidente. E ainda ministro, governador, senador, deputado, tanto federal como estadual. Todos com um só interesse: fortalecer suas bases para as próximas eleições. Discutiu-se de tudo, dignidade, honestidade, ética e lavagem de roupa suja. Mas, do que agora reclamam, nada. Não seria o momento ideal? Não para conversas aos cochichos. Para os conchavos. Mas para, pelo menos, dar mais credibilidade quando diziam que melhorariam a educação, a saúde bateria na porta de todos e as ruas seriam ?ladrilhadas com pedrinhas de brilhante?. Com que recursos, já que agora mostram o temor de serem incluídos no rol dos ?fichas-sujas?? A grande verdade é que muitas dessas células-mãe sobrevivem para a manutenção das instâncias superiores e, mais ainda, para dar vazão aos recursos públicos, estimulando a corrupção. Municípios existem que não têm estrutura administrativa para executar uma simples concorrência pública. Quando o dono do pedaço, ou seja, o eleito por aquela comunidade, chefe do ?curral eleitoral?, como se dizia antigamente, consegue uma dotação orçamentária para construir uma obra significativa, uma ponte, uma estrada, um ginásio esportivo ou coisa semelhante, leva, pari passo, a construtora que lhe financia as campanhas. Será ela que irá suprir as necessidades do acachapado lugarejo? Responsabilizar-se-á por toda a tramitação, quais concorrentes e quais vencedores serão coroados. Desse modo, espalharam-se, Brasil adentro, as Deltas e os Cachoeiras para a grande satisfação desse tipo de político, que ainda finge querer investigar e combater a corrupção que ele mesmo alimenta.