Opinião
ADVOGADOS LEGEND�RIOS
A década dos anos 50 foi marcada pelos grandes julgamentos na cidade do Rio de Janeiro. Casos emblemáticos colocaram em destaque famosos tribunos e penalistas. Stélio Galvão Bueno, advogado talentoso, ostentava riqueza e desfrutava do esplendor do seu sucesso profissional. Evandro Lins e Silva, causídico de larga projeção, retórica serena e linguagem equilibrada, cultivava lições de Henri Robert, René Floriot, Maurice Garçon e de outros mestres da arte do convencimento. Depois, se tornaria símbolo da advocacia brasileira, um obstinado defensor da liberdade. Apesar de competidores, nutriam recíproca admiração e respeito. Em um encontro social, Stélio Galvão confessou à sua companheira e esposa, Julmira, ser Evandro Lins um bom advogado e, se algum dia tivesse necessidade de um defensor, sugeria procurá-lo. Após algum tempo, uma crise sentimental envolve Stélio e Zulmira Galvão, em decorrência do gênio mundano do esposo, que movido pelo brilho profissional passou a desfrutar de novas aventuras amorosas. No clímax de uma áspera discussão, Zulmira amedrontada e humilhada, no ambiente devastador do seu lar, aciona o gatilho da própria arma do marido, deixada ao alcance de suas mãos, ferindo-o mortalmente. Agonizante, os vizinhos o conduziram ao hospital mais próximo. Ao médico que o atendeu, Stélio Galvão Bueno articulou seu derradeiro argumento penal ? doutor salve-me, preciso defender minha mulher?. Ao ser presa, Zulmira recordou-se da cruel e irônica indicação do marido assassinado. Chamado, Evandro Lins, após indecisão inicial, aceitou defendê-la no processo criminal. O julgamento de Zulmira Galvão Bueno despertou, na população da cidade do Rio de Janeiro, imensa curiosidade. As fotografias mostram Zulmira no banco dos réus ? imagem do sofrimento com vestígios de uma beleza que ficara no passado. Evandro Lins arguiu a tese de legítima defesa putativa (ora, defesa própria com o requisito de iminência de agressão) e confrontou o comportamento exaltado da vítima e o estado de mágoas da acusada. O júri acolheu a tese da defesa mas reconheceu um excesso culposo, condenando a ré a dois anos de prisão, com direito a livramento condicional. Após a sentença, Zulmira não revelava no olhar sentimento de vitória. Espelhava o destino infeliz das mulheres, levadas a substituir gestos de amor pelas ações trágicas do desespero.