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Opinião

A selvageria no asfalto

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Como já virou hábito, ou melhor dizendo, vício, mais um protesto usa a vezeira forma de prejuízo à vida alheia. Desta vez, foram indígenas os autores da proeza, interrompendo o tráfego pela BR-104 por conta de sua pauta de reivindicações. Cena mais apropriada ao Velho Oeste americano, mas, reconheçamos, tem sua razão de ser aqui. O protesto foi organizado pela tribo Wassu Cocal em exigência ao pagamento de indenizações por conta de terras deles que teriam sido desapropriadas para a duplicação da rodovia. Justiça seja feita, os Wassu Cocal são batalhadores de longas datas e, desde antanho, muito têm sofrido desde a Guerra do Paraguai. Sabe-se que integrantes dessa tribo alagoana foram recrutados para os batalhões de Voluntários da Pátria quando da terrível guerra de 1864-1870. Em retribuição ao sangue indígena derramado em prol do pendão verde-amarelo, sua Majestade Dom Pedro II os premiou com considerável extensão de terra (parte ínfima do território que ocupavam antes do Descobrimento) para fixação definitiva de seus descendentes. O tempo foi passando e os terrenos doados foram sendo ocupados pelas fazendas, sítios e demais plantações dos caras-pálidas (como se chamariam se estivéssemos nos EUA). Entre os anos 70 e 80 do século 20, os descendentes dos índios guerreiros reconquistaram boa parte das terras presenteadas pelo Imperador. Mas os problemas não terminaram ali. Considerando como justas todas as atuais reivindicações dos bravos Wassu Cocal e defendendo seu direito de lutar, novamente, pelo que consideram espoliações sofridas, é o caso de criticar a forma de luta optada. Os danos que eles denunciam estar sofrendo por desatenção governamental não justificam a imposição de prejuízos aos demais cidadãos, inocentes e indefesos, que tiveram o azar de precisar transitar pela rodovia interditada. A promessa de manutenção do impedimento do tráfego é uma exacerbação do abuso, uma extremada falta de respeito à cidadania. Pode-se dizer, sem medo de errar, que tais protestos são pura selvageria, um desserviço da democracia.

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