Opinião
O palavreado acima do peso
Em cima dos acontecimentos os sites noticiaram, anteontem, que a presidente Dilma teria cometido uma gafe e sido vaiada; em seguida, ela teria sido aplaudida efusivamente pela mesma plateia. Naturalmente, a dúvida se instalou para quem leu apenas a manchete. Que tropeço de oratória teria sido este, capaz de provocar reações tão contraditórias e simultâneas? Teria a presidente elogiado os mensaleiros para depois os criticar? Ou teria feito algum comentário contra e/ou a favor sobre a escolha de Felipão como técnico da Seleção e depois corrigir-se sendo a favor e/ou contra ele no comando do escrete canarinho? Teria dito que o governo brasileiro apoia os israelenses contra os palestinos e/ou os palestinos contra os israelenses? Nada disso. O dito e corrigido pela presidente Dilma foi ?pessoa portadora de deficiência? e ?pessoa com deficiência?, mais ou menos nesta ordem ou no sentido inverso, sendo que um termo é politicamente correto e o outro não. Entenderam? Difícil entender como a ideologização alcançou tão profundamente o vernáculo. E como tem obrigado a soluções esdrúxulas como acrescer as variações de gênero a coisas do tipo ?assembleia dos trabalhadores e trabalhadoras?. Sem falar na ?replicância?, digamos, de termos como ?sustentável?, conceito que virou adjetivo de uso facílimo a ser agregado, quase que obrigatoriamente, a qualquer atividade humana. Evidentemente que as palavras refletem conceitos mais profundos, são emblemáticas além do léxico, mas é um tremendo exagero a onda contemporânea de entender o palavrear como delimitação de espaços, declaração de intenções, opção política e tudo o mais que possa ser motivo de interpretações tão variadas quanto caudalosas. A camisa de força do ?politicamente correto? não só criou um policiamento exagerado sobre as manifestações cotidianas como está determinando um engessamento atrofiante para o uso do vernáculo. Felizmente esse pressionamento não se deu há décadas, pois o Brasil poderia ter perdido obras de arte como muitas das composições da música popular e da nossa literatura de raiz.