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Nº 5750
Opinião

Incertezas

HUMBERTO MARTINS * O consumidor brasileiro está sofrendo, ultimamente, sucessivos aumentos no preço do pão e das massas, alguns dos seus principais alimentos, como conseqüência da valorização do dólar em face do real. Dependendo em mais 80% de trigo i

Por | Edição do dia 29/10/2002 - Matéria atualizada em 29/10/2002 às 00h00

HUMBERTO MARTINS * O consumidor brasileiro está sofrendo, ultimamente, sucessivos aumentos no preço do pão e das massas, alguns dos seus principais alimentos, como conseqüência da valorização do dólar em face do real. Dependendo em mais 80% de trigo importado, principalmente da Argentina, o consumidor nacional precisa de um mínimo de normalidade no nosso principal vizinho do Cone Sul para ter o pão de cada dia, o que é, atualmente, situação de risco. Produzir trigo no Brasil é complicado por uma série de razões: depende do clima na região sul – Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, o produtor nacional não consegue custos minimamente competitivos com o produto estrangeiro e são necessários grandes financiamentos para uma produção pífia. É preciso, portanto, de parte dos responsáveis pela economia e pelo abastecimento, criatividade e principalmente determinação. Uma das principais seria aproveitar a farinha de mandioca para misturar à farinha de trigo, numa produção em torno de 10%, projeto este de autoria do deputado federal alagoano Aldo Rebelo, em tramitação na Câmara Federal e no Senado da República. São numerosos os aspectos positivos da opção e, que se saiba, nenhum negativo. O sabor da mistura é agradável, o agricultor brasileiro, de um extremo ao outro do País, cultiva, há séculos, a mandioca; o aumento do consumo e, conseqüentemente, da produção da mandioca, multiplicariam o número de emprego; o fabrico da farinha é feito através de processo fácil e simples, com a qual estão familiarizados milhões de pessoas na vasta área rural e a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, Embrapa, confirma a viabilidade econômica e técnica da iniciativa. Há outras alternativas para misturar à farinha de trigo – o milho, por exemplo – mas a farinha de mandioca é, sem dúvida, a mais viável. O aproveitamento do milho e da farinha de mandioca não eliminou, naturalmente, o fabrico do pão de trigo, que custaria mais caro. Mas ao menos estaria garantido o pão, com irrelevantes variações de sabor, para a maior parte da população. Os principais responsáveis pela oferta de pão e massas à população, - autoridades responsáveis pelo abastecimento e empresários do ramo – precisam encarar a matéria com a prioridade que a situação exige. Antes que o preço dos derivados do trigo atinja proporções insuportáveis ou que o produto simplesmente desapareça do mercado nacional. Além de desinteresse governamental para reduzir a dependência do trigo importado, o principal impasse é que o agricultor brasileiro não consegue produzir trigo com uma produtividade comparável aos argentinos e canadenses, dois dos nossos fornecedores. E como não tem produtividade, não pode competir em preço, o que induz à importação. Mas nesse conjunto de variantes não se deve omitir o risco de inviabilidade financeira e de outras naturezas inibir a importação. Não se pode correr o risco de faltar na mesa o principal item da alimentação dos brasileiros. E é justamente esse risco que o País está agora correndo, com o aumento do dólar e a interminável crise argentina, gerando, assim, incertezas no abastecimento. Podemos acrescentar o fomento à produção agropecuária e à organização do abastecimento, constitucionalmente, é com potência da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, conseqüentemente, repito sem abastecimento não há uma política justa de desenvolvimento, já que atinge diretamente as camadas mais pobres da população. * É DESEMBARGADOR DO TJ/ALAGOAS

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