Opinião
Vicente de Paulo
DOM FERNANDO IÓRIO * Os santos não deixam de ser novidade na visão da sociedade atual. Santos de todos os estilos, de todas as nuanças, com personalidades diversas enriquecem a Igreja do Senhor. Vicente de Paulo apresenta-se como um deles, no cenário santoral. Ninguém mais do que ele imitou Jesus, no mandamento do amor. Para ele, não têm os pobres necessidade de nossa compaixão, mas, de nossa ajuda, de nossa partilha, de nossa solidariedade. Eles nos oferecem muito mais do que nós a eles. Nunca foi homem de partidos, de grupos ideológicos, no campo social; ao contrário, homem prático, cuidou dos pobres e dos nobres, destes por causa daqueles. Sabia que para cuidar dos miseráveis necessitava dos ricos; deixava bem claro que a salvação dos ricos vinha dos miseráveis, assim como a salvação da humanidade provinha de uma simples criança nascida numa pobre estribaria. Salientava que tanto a riqueza como a miséria eram extremos perigosos para a salvação do ser humano. Na riqueza, o perigo do orgulho e da avareza; na miséria, o perigo do desespero e da violência. Urgia o nivelamento, não por decreto, pela força ou pela luta, senão pela conversão à caridade. Tanto bastou assim pensar para unir nobres e miseráveis. Quanto obtinha dos ricos ofertava aos, constantemente, famintos. Assim beneficiava a uns e a outros: sua ação, por vezes, limitada conforme as circunstâncias, foi, no entanto, conforto para marginalizados, jogados à miséria. Vicente, cujo nome, etimologicamente, transmite a idéia de vencer, não triunfou, jogando uns contra outros, mas colocando uns diante dos outros, visando ao entendimento na justiça e no amor. Nunca, em seus planos, foi pensada a violência, a luta de classes, o jogo de interesses... Na solidariedade, buscou a resolução dos problemas dos miseráveis. Ao inverso do confronto, era forçoso o encontro. Na ótica de Vicente de Paulo, o destino universal de todos os bens, a partilha, a distribuição, a preferência pelos mais pobres e miseráveis fazem repensar a política, a economia e a própria caridade. Desnecessário insistir em que os desertos mais sem fim, sem sombra, nem oásis são os criados, dentro e fora de nós, pelo desamor. Desnecessário afirmar que foi, no amor, que Vicente colocou ricos e miseráveis, uns diante dos outros, não para um confronto, senão para frutuoso diálogo do dar e receber. Nossa tarefa consiste, desde já, em colocar ricos e miseráveis, nobres e pobres, frente a frente, posicionando-nos, como ponto de apoio, na resolução dos problemas da miséria. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS