Opinião
O CRIADOR E A CRIA��O
Costumo dizer que depois de Duchamp a arte nunca mais foi a mesma. Pelo menos com o conceito secular de arte como essência do belo. Mas a realidade é que a virada do século 20 levou a arte a uma bifurcação entre o moderno e o contemporâneo. Sem palavras para um elogio sistemático da produção artística do mundo atual, o crítico mirou a espingarda na concepção, ou seja, na ideia do criador. Perdeu-se aí o questionamento de estilo, escola, formação, técnicas, materiais, suporte e até a ação física de fazer pelas próprias mãos. Faça-se a ideia! O papel da arte, hoje, mais do que em qualquer tempo é fazer pensar. E pensar é o que menos este século gosta de fazer. É só ver como cresceu o entretenimento de massa no mundo inteiro. Quanta gente passa noites acordadas assistindo a um reality show que não lhe acrescenta nada mais do que querelas coletivas via redes sociais e até na impressa. No Brasil, por exemplo, foram publicados 386 mil livros em 2009. No entanto, com uma população de 193 milhões de habitantes, o número de leitores de 95,6 milhões caiu para 88,2 milhões em 2011. Isto significa 45% de uma população de leitores. Tirando 16% de analfabetos, o restante simplesmente não gosta de ler. Por isso é tão difícil fazer pensar. E arte, a arte contemporânea, considerando que não tem outro apelido, vira um termo genérico que abrange tudo o que se faz nos tempos atuais, seja a concepção de um objeto, uma instalação, uma performance, e até uma tela pintada com uma paisagem marinha bem comportada não deixa de ser contemporânea, no verdadeiro conceito deste vocábulo. No aspecto cartesiano, o artista poderia até dizer: penso e a arte existe. Mas o leitor também pode fazer o mesmo. Qualquer pessoa o pode. Mas para o artista, a arte passa realmente a existir a partir do reconhecimento crítico. Digamos que também se perdeu no mundo contemporâneo a noção da obra cristalizada num estilo inconfundível. A obra de arte, hoje, se torna única à medida que realça o aspecto inusitado da criação com novas experimentações, como o estímulo às sensações, a interação com o espectador e até mesmo a complementação desta obra por este mesmo espectador. A arte deixou de ser apenas um objeto de contemplação. Recomendo, finalmente, uma visita à mostra do Prêmio Marcantônio Vilaça, no Palácio do Comércio, nos horários de 9 às 18 horas, e aos sábados e domingos, das 10 às 18 horas.