Opinião
LI��ES DE NELSON RODRIGUES
As reflexões do cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues ocupam um lugar definitivo na literatura nacional. Bastante apreciado pelo sabor contundente de suas observações, o centenário de seu nascimento, ocorrido neste ano, fortalece as lembranças de suas paixões. Um repertório de largos sentimentos marcam sua obra. Afirmou, ser o apelido mais significativo do que o próprio nome, por espelhar melhor seu portador, traduzir semelhanças e comportamentos. Identificar com mais precisão cada realidade humana. O nome próprio representa uma escolha familiar promovida pela emoção de um nascimento. O apelido faz mais justiça, revela a sugestão emanada do julgamento da vida. Com a sabedoria, Nelson também declarou não existir herói sem uma dosagem de ridículo. A liberdade de agir seria uma condição ao sucesso. As pessoas reservadas não cultivam riscos, seriam conservadoras. As aventuras subvertem as rotinas e despertam para arte de viver. As ações inovadoras exigem ousadia e não possuem compromissos rendidos ao passado. Buscam novos horizontes, superam velhas teorias e abrem o coração para um futuro renovador. Nelson Rodrigues formulou um pensamento ? o dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro. A alma política, inerente aos grupos e ao ser humano, pratica a arte das negociações. Todos os valores estariam sujeitos à troca dos favores, ao leilão dos desejos, à manutenção do poder e às pretensões incontidas. Seu melhor ensinamento foi talvez a interpretação que deu à sua própria vida. Se julgava um anjo pornográfico. Descobriu uma ternura angelical, na nudez, na falta do pudor e nas desmedidas paixões. Não concebia a criatura humana fora do alcance dos pecados. Os dramas fariam parte da essência dos encontros e dos desencontros da existência. Colocou uma poesia dramática na corrente das ilusões. Denominou de flor de obsessão ? suas ideias fixas, a repetição de palavras envolventes e a sensualidade de sua alma indomável. Por ser trágico se tornou inesquecível. E, o brilho invulgar de seus dizeres, eternizou a linguagem rubra de seu infindável testamento.