Opinião
O NATAL DA DOCE ANNE
Voando de Nova York para Orlando, ao meu lado viajava uma linda garotinha. Parecia só. Com um boneco de pelúcia e um livro na mão, ela intercalava o passar do tempo. Observei que o livro não tinha nenhuma gravura. Com um marcador de páginas, ela lia uma ou duas folhas e parava. Inquieta, a solidão a incomodava. Perguntou meu nome. Percebendo a necessidade de distraí-la, indaguei o seu e sua idade. Ela foi enfática: Tenho seis anos e meio e me chamo Anne. Tinha uma pulseira da aérea, o que caracterizava estar sob os cuidados da empresa. Disse-me ter passado a festa de Ação de Graças (Thanksgiving) com a mãe. Passaria as festas natalinas com o pai. A Big Apple estava efervescente. Com belíssimo céu azul, apesar do frio de três graus, a cidade estava em pleno ritmo natalino. As lojas, lotadas, tinham encantadoras decorações. Anne parecia alheia a tudo. Disse-lhe ter três netos de idade próxima à dela. Emocionou-me esta pergunta: seus netos passam o Natal com o pai ou com a mãe? Tive dificuldade em responder. O Natal de Anne era incompleto: faltava a metade da família. Percebi sua tristeza. Confessou-me sentir saudades da mãe na noite de Natal. Notei seu semblante angustiado ao fazer declarações familiares. Com sete anos incompletos, Anne é uma vítima consciente da separação dos pais. Natal é festa de família. De solidariedade. De união. Para Anne é época de saudades. Refleti: o Natal existe devido ao nascimento de uma criança divina: o menino Jesus. Apareceu a figura mágica de Papai Noel, perpetuando a tradição de presentes, sobretudo, entre as crianças. Quem não se recorda de ter escrito uma cartinha ao ?Velho Barbudo?? Da felicidade em abrir os presentes, ao acordar, no dia de Natal? Perguntei à Anne se ela gostava de Papai Noel, e se tinha lhe pedido algo. Ela respondeu-me: gostaria que Papai Noel trouxesse meu pai para junto de minha mãe e de mim. Encantei-me e entristeci-me ao mesmo tempo. Como as crianças precisam sentir-se amadas! Os pais são o exemplo, a segurança e o afeto dos filhos. Quantas ?Annes? há no mundo que sentem falta do aconchego familiar? Crianças se nutrem, sobretudo, de carinho e amor. Que neste Natal, os pais, os avós e todos nós possamos fazer uma criança feliz, diferente do Natal da doce Anne.