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O ANO EM QUE JESUS NASCEU

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Inventei de cascavilhar textos pios e profanos, logo vindos das canetas de pensadores crentes e ateus, agnósticos e indiferentes, na tentativa de decifrar o dia, o mês e o ano em que Jesus teria nascido. Até Plínio Salgado fui consultar, depois de deitar os olhos sobre os escritos dos Evangelistas, de Josefo, de Ernest Renan, de Giovanni Papini, de Ellen G. White, de Spencer Lewis e até de Friedrich Nietzsche, este último a assegurar que o único cristão morreu na cruz. Minha mulher e depois meu filho foram os primeiros a procurar me fazer desacreditar na utilidade da minha pesquisa, cada um assentado em argumento de que agora nem me lembro. Mas ainda persisti por um bocado de tempo em meu intento, até que finalmente, por mim mesmo, cheguei à conclusão de que todo aquele esforço esvaia-se em tempo perdido. Afinal de contas, são tantos e divergentes e mesmo contraditórios os entendimentos que, no frigir dos ovos, já há quem encontre motivos para duvidar (não sem algum sentido) de que realmente tenha existido um Jesus de Nazaré, ou melhor de Belém, pois que se diz que lá nasceu. Mas ao mesmo tempo lá veio a noção de que, tenha ou não existido um pregador com aquela história de vida contada nos catecismos, houve por certo alguém ou alguns que, criando ou sintetizando as convicções de outros, construiu ou construíram a doutrina a ele atribuída. Qual a relevância, por conseguinte, de que se tenha à mão a certidão de nascimento de Jesus, a ata da sessão em que ainda miúdo calou os sacerdotes, o boletim de ocorrências que retrate o seu ato de depredação das bancas dos vendilhões do templo, a sentença que o condenou a morrer pendurado em uma cruz (a vida escorrendo pelos buracos abertos por pregos enferrujados) ou, finalmente, a sua certidão de óbito, levando por declarante a sua mãe e por testemunhas João Zebedeu, Nicodemos e José de Arimateia. O que vale, sim, é o magistério legado por alguém que, carregando ou não o nome de Jesus de Nazaré ou de Belém, humanizou os conceitos religiosos dos seus ancestrais. E assim edificou uma mensagem de esperança que, apesar de que traída pela igreja de Paulo de Tarso, quando ensanguentou a Palestina com as espadas dos cruzados, quando se vestiu de roxo com o assassinato das crianças, das mulheres e dos homens cátaros, quando mergulhou no desastre ao abençoar e a até estimular a escravidão dos negros africanos, é ainda hoje um brado pela solidariedade entre os homens. Já pensou como seria o mundo de amanhã, se cada um de nós, a partir de hoje, aprendesse a amar ao outro como a si mesmo? Pois é esta a receita daquele a quem chamamos Jesus de Nazaré.

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