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VINICIUS DE MORAES E O POEMA DE NATAL

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Essa semana, duas pacientes marcaram-me: a primeira, uma senhora que luta há anos contra um câncer disseminado em seus ossos, procurou-me com recidiva da enfermidade. Diante da minha surpresa com seu estado geral ainda hígido, disse-me ser resultado de sua fé religiosa e embora sofresse dores atrozes, como era época devotada integralmente à sua igreja, só iniciaria o tratamento após as festas de fim de ano. Outra paciente, tratada há cinco anos de um câncer uterino do qual está curada, trouxe-me sua irmã gêmea com um câncer de laringe. Estavam separadas de forma abissal, física e afetivamente por mais de quarenta anos; a enfermidade comum as reunira fraternalmente. Época natalina, repleta de festas e confraternizações. Ritmo frenético de consumo, tudo regado a muito álcool. Recessos liberam muitos para esse mundo de fantasia. Os médicos, ao contrário, como os que sofrem não têm recesso, assoberbam-se de trabalho e continuam convivendo com a realidade em todos os seus matizes. Vinicius de Moraes em suas parcerias com Tom Jobim e Toquinho, entre outros mestres da MPB, cunhou de forma exuberante momentos de sua produção. Com o tempo, a sua verve poética sofreu a influência do tempo, ficando mais reflexiva e mais aprofundada: o cachorro engarrafado e a libido passaram a ser menos determinantes. É dessa fase madura o Poema de Natal. É dedicado à nossa precária condição humana: ?Para isso fomos feitos. Para lembrar e ser lembrados. Para chorar e fazer chorar. Para enterrar nossos mortos. Por isso temos braços longos para os adeuses. Mãos para colher o que foi dado. Dedos para cavar a terra?. Continua: ?Assim será a nossa vida. Uma tarde para esquecer. Uma estrela a se apagar na treva. Um caminho entre dois túmulos. Por isso precisamos velar. Falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer. Uma canção sobre um berço. Um verso, talvez de amor. Uma prece por quem se vai?. Finaliza: ?Mas que essa hora não esqueça. E por ela os nossos corações. Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos. Para a esperança no milagre. Para a participação na poesia. Para ver a face da morte. De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem, da morte, apenas nascemos imensamente?. Feliz Natal para todos, em especial, para aqueles que continuam a postos, convivendo integralmente com a realidade, mas sem deixar de sonhar.

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