Opinião
O POETA IMORTAL
Quando Pierre Chalita terminou o retrato de Lêdo Ivo ? o escritor sentado com um posar irrequieto, o artista procurando captar rapidamente os traços essenciais do modelo ? pareceu-nos que o representado não se entusiasmou com sua imagem. Então o pintor, expressionista por vocação, explicou-me: ?mais do que a fisionomia, captei-lhe a alma?. E assim aconteceu. Cada vez que eu reencontrava Lêdo, achava-o mais próximo da tela que lhe registrara o arrebatamento, a vivacidade, o entusiasmo, a inesgotável energia vital, o amor às palavras, a coragem de lutar, a insatisfação produtiva, a paixão pela busca, enfim o olhar de um escritor envolvido pelos problemas da condição humana. Sua partida definitiva, ocorrida no dia 23 de dezembro último, deixou um grande vazio no coração dos que o estimavam e o admiravam como um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, de forma que sua imagem pictórica, juntamente com todo o acervo de seu Memorial, segmento do Museu Floriano Peixoto, em Maceió, será uma referência importante para os que não tiveram oportunidade de conhecer-lhe o porte altivo, realçado pela inteligência brilhante. Sem dúvida, o desaparecimento desse notável poeta e ficcionista alagoano entristeceu o Natal de todos quantos o apreciavam e não foram poucos os que gostavam de ouvi-lo nas conferências ou nos bate-papos informais, pois sempre tinha o que contar sobre o tempo presente, e mais ainda sobre o passado, detentor que era de uma memória privilegiada, fiel guardiã de momentos únicos da história e da vida cultural de nosso país. Além do mais, narrava os fatos de uma forma particular e espontânea, alternando a fala com risos ruidosos, que lhe tomavam a horizontalidade da face, muitas vezes apimentados por um humor delicioso. Era Lêdo e era ótimo. Mas a intimidade do escritor com seus conterrâneos, até certo ponto dificultou o entendimento de sua produção ficcional, ao procurarem, por conta do convívio, cotejá-la com a realidade circundante, instigados por uma curiosidade, que deixava em segundo plano as qualidades e especificidades literárias da obra. Agora que o homem se foi, a biografia do autor premiado nacional e internacionalmente deixará de ser o fio condutor das exegeses e dos estudos críticos do vasto legado poético do ilustre membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Alagoana de Letras para ceder lugar aos estudos que se multiplicarão nas universidades, com leitores seduzidos pela literariedade de seus incontáveis textos em prosa e verso. Então, o poeta do mar e do sonho explodirá em imagens, derramando-se em pródigas sonoridades e arrebatadas visões de paisagens em que ele mesmo se coloca como ?o menino perdido e reencontrado, que se procura a si mesmo entre rostos indiferentes, certo de que só essa busca terá o poder de transformá-lo em linguagem?. Em 2008, com reproduções de pinturas de Gonçalo Ivo e desenho de Gianguido Bonfanti, Lêdo publicou o livro de poemas Réquiem no qual um eu lírico pressente o fim de seu cantar determinado pela contingência da vida humana. Dessa voz dorida ouve-se: Ó claridade, adeus! Despeço-me do sol,/Do mar incomparável e da noite intempestiva./Vivi sem aprender que tudo é perda e passagem/E que a maresia apaga o nome dos navios/e leva para bem longe os rumores da vida. Agora o silêncio do mundo lacra a minha alma./O róseo raio da rosa alvorada/aponta para a noite escura./ De mim mesmo afastado pela morte,/ essa concha que não guarda o barulho do mar,/ é aqui que termina, na lama negra dos maceiós,/ o meu longo caminho entre dois nadas.