Opinião
MORRER POR AMOR
A vida é o bem maior do ser humano. Muitas vezes o único, é gasto apenas a troco das mais nobres e extremas causas. A atual ebulição que vive o mundo árabe, por exemplo, que derrubou ditadores e regimes autoritários entronizados por décadas, se iniciou com um único ato de imolação. O despertar dessa primavera não foi o único dos grandes sonhos cujo preço foi merecedor do pagamento com a vida. A independência de um Estado, o direito ao culto de uma religião, a permissão para exercer as sexualidades mais diversas, em essência, a maior justificativa para o máximo sacrifício é a liberdade. Muitas almas se perderam em incontáveis batalhas ao longo dos tempos, em sua busca. Os verdadeiros heróis da história não o são pelo que viveram, mas pelo que morreram. Mas há também os heróis do dia a dia. Mergulhando para evitar afogamentos, entrando em prédios em chamas, resgatando inocentes em catástrofes, algumas pessoas são capazes de abrir mão da própria existência, pela do próximo. Seres superiores que ao fim, não duvido, devem encontrar a satisfação. Talvez seja covardia, apatia ou simples apego besta, mas não me enxergo em tais aventuras, nem posteriormente satisfazendo-me nos céus com tal bravura. Mas existe, sim, uma forma pela qual teria orgulho de morrer. Quem nunca soube de um casal de velhos amantes que, uma vez separados pelo destino, faz parecer que um convocou o outro para lhe fazer companhia no mundo do além? Alguns de nós, ainda crianças, percebem que muitas vezes quando um avô se vai, o outro não demora a ir também. É como se o vínculo entre os dois fosse tão forte que, ao contrário do que prega o sacramento, nem a morte pudesse separá-los. Esse fenômeno começa aos poucos a ser estudado pela ciência. Uma pesquisa realizada na Inglaterra com 100 mil casais mostrou que alguém que perdeu o cônjuge tem uma chance de morrer naquele ano 41% maior do que o normal. O efeito foi observado em todos os sexos e idades, e não tem relação com condição econômica, cultural ou de saúde prévia. A medicina só agora está descobrindo o que os artistas e poetas já sabiam há muito tempo, é possível, sim, morrer de saudade. Para quem ama, o mundo sem o amado se torna uma prisão, e, às vezes, dela cabe se libertar. Talvez só os espíritos mais humildes e os apreciadores do pequeno cotidiano concordem comigo, mas esse, sim, é um bom motivo para morrer, morrer por amor.