Opinião
O OLHAR DO TEMPO
A nova página do calendário, marca de um novo tempo, desperta em todos nós, largos sentimentos e uma visão crítica sobre os valores que nos cercam. O avanço das horas reflete inquietações, conforto pelas pequenas realizações e sonhos de renovados projetos. Torna-se necessário prosseguir, com as lições aprendidas, com os enganos cometidos e com a ânsia desmedida de viver. Nada acabou definitivamente, até dos desenlaces restaram lembranças, imagens fixadas na memória, sombras a perseguir nossos passos em direção ao futuro. O tempo não para, mas existem indecisões frequentando a escolha de caminhos. Herança dos momentos vividos que não convenceram as nossas expectativas e agora renascem com a força dos desejos contidos. Este ímpeto e esta chama nos guiam, nos orientam e nos impulsionam a lutar e a sonhar. Recomeçar o ritual dos dias e a contagem do tempo se revela enfadonho. As emoções que envolvem as horas, as surpresas que distinguem os instantes e as promessas ditadas pelo destino proporcionam novas razões de viver e inauguram esperanças nos horizontes da caminhada. O tempo nos olha de forma terna e enigmática. Ao final, vamos nos render aos seus caprichos e às suas respostas imprevisíveis. Conhece a fragilidade de nossas ambições e os ensaios ruidosos de nossas vaidades. Permanece silencioso, à espera do encontro das horas, da prestação de contas de nossos anseios e das ilusões cultivadas por cada história individual. O movimento das ruas e o ritmo das pessoas que passam geram indefinições entre o passado e o presente. Somos personagens de um cenário desenhado por coisas que estão acontecendo e de fatos registrados no passado. Algo teima em persistir, como uma sombra separando duas realidades. As emoções deixadas no ar se confrontam com nossa imaginação. Existe um receio inconsciente de que esta alegria dominante possa desaparecer de repente. E a realidade venha a se tornar pequena e fria. Somente as figuras emudecidas são testemunhas fiéis do tempo. Observam todas as ocorrências que parecem despercebidas ou esquecidas. O olhar do tempo nos ensina que certos valores permanecem e se multiplicam. Nada desaparece totalmente. Ficam para provar que existiram. Todos desejam fazer parte desta história permanente. Não apenas para validar sua existência, mas para vivenciar os fatos futuros quando não mais aqui estiver.