Opinião
A estrela Lula
EDUARDO TAVARES MENDES * O Brasil viveu, no último dia 27, a sua maior experiência democrática de todos os tempos. Não pelo processo eleitoral em si, mas pela oportunidade que um representante do proletariado teve de chegar à presidência da República. Pela primeira vez, entre nós, um membro da classe operária será Chefe de Estado. Nascido no interior pobre do agreste nordestino, Lula emigrou para São Paulo onde foi ambulante, passou fome e, durante o regime militar, foi preso. Por tudo isso, sua ascensão ao poder tem causado perplexidade entre as chamadas elites sociais. Ex- torneiro mecânico e ex-líder sindical, Luiz Inácio Lula da Silva será o próximo presidente de um país espoliado, marcado pelos dramas sociais, pela violência e, sobretudo, pelo descaso dos administradores para com os interesses mais elementares da comunidade. Nesse contexto, questões como aumento do salário mínimo, juros, dívida externa e movimento ?sem-terra?, dentre outras, têm angustiado a população que há muito tempo amarga os efeitos nefastos das ações de governos desastrosos. A conjuntura apontada certamente mostra que o fardo que o futuro chefe da Nação carregará nos ombros, a partir de janeiro vindouro, pesará muito mais do que se imagina. Afinal de contas, a sua eleição representa anos e anos de expectativa de um povo esperançoso, mas que não tem certeza se ele e o PT saberão conduzir a contento as conversações e os acertos necessários para tirar o país do caos em que se encontra, sem afetar a governabilidade. Como, enfim, a cada oportunidade corresponde uma obrigação, Lula logo mostrará a que veio. Não esperemos, contudo, milagres. Aliás, no dizer de Meyer London, ?democracia não significa perfeição. Significa a possibilidade de se lutar pelo aperfeiçoamento?. O Brasil, no entanto, precisava passar por esta prova e a legitimidade do líder maior do PT, conseguida ao longo de décadas de lutas e de participação efetiva no processo de democratização do País, é o salvo-conduto de que o futuro governo precisa para implementar as modificações esperadas por toda gente brasileira. Urge que se entenda, neste momento importante da História do Brasil, que Lula não será presidente do PT, e sim de todos os brasileiros. Devemos, ainda, reconhecer que ele é um dos poucos e verdadeiros líderes de massa surgidos em toda América Latina nos últimos tempos, e que a sua história tem despertado o interesse das mais importantes nações do planeta ? o que é bom. O presidente eleito, portanto, apesar de tudo, mormente por seus compromissos sociais, vem a ser a esperança de melhores dias para todos, e não podemos permitir, jamais, que desavenças políticas internas levem o Brasil a fazer parte do bloco das nações nas quais o governo teme o povo, e muito menos de outro segmento de países onde tem predominado o medo que o povo sente por seus governantes. Para que a estrela do PT brilhe, as grandes questões nacionais deverão estar acima dos problemas político/partidários. É lógico que haverá quem aprove as ações da nova gestão governamental, como também não faltará quem as reprove. Uns ganharão, outros perderão. É assim na política. Os ganhadores, entretanto, haverão de ser a maioria de brasileiros composta dos descamisados, dos ?sem-teto? e ?sem-terra?, dos ?sem-trabalho? e ?sem-ventura?. Desse modo, já terá valido a pena a experiência. Assim, torçamos para que, ao final, Lula entre para a galeria dos grandes presidentes, de origem humilde, que marcaram a História, como Abraão Lincoln e Nelson Mandela, e que, com ele, o Brasil encontre o seu rumo. (*) É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE ALAGOAS