Opinião
Dois pesos e duas medidas
Efetivamente, a chamada ?grande mídia? centrada no eixo Rio/São Paulo, em sua versão contemporânea, põe o icônico Assis Chateaubriand no sapato. Basta comparar as coberturas destinadas a dois personagens públicos, ambos condenados pela Justiça, e como cada um usufrui de suas liberdades, digamos, provisórias. O petista José Genoino foi brindado em profusão por manchetes, fotos, análises, notas, teses. O sentimento pautado, enfiado goela abaixo do leitor, é de radical indignação ? independentemente do cidadão estar a fazer o que a Constituição lhe concede. A mesma Constituição concede ao também apenado Carlinhos Cachoeira direitos indiscutíveis em relação à sua condição legal. Até onde se sabe, não existe ilegalidade na curtição de sua lua de mel num caríssimo e paradisíaco hotel encravado no Litoral Sul da Bahia. Mas pouca atenção desperta, na ?megamídia?, sua faustosa presença num estabelecimento cuja diária média, nesta época do ano, situa-se na faixa dos R$ 3.000. As notícias são magrinhas, pontilhadas por poucas imagens, acompanhadas por praticamente nenhuma avaliação dos colunistas e editorialistas tão atentos e cáusticos no caso dos ?mensaleiros do PT?. Porém, as contradições expressas no fato de um condenado suportar sua pena em tais condições são maiores, senão parecidas com um parlamentar punido pela Justiça poder assumir o mandato conquistado nas urnas. Por que, então, apenas um desses personagens, mergulhados praticamente na mesma situação polêmica, é tornado foco do interesse midiático? Por que o peso da liberdade de imprensar arrocha uma dessas figuras públicas e alivia com a outra? Casos como este reafirmam o matiz tendencioso de alguns dos mais conhecidos veículos midiáticos brasileiros, num desserviço à democracia. Questões como os processos dos ?mensaleiros do PT? e de indivíduos explicitamente ligados ao tucanato e ao jornalismo marrom deveriam ser tratados com pesos e medidas idênticos. À democracia é fundamental e indispensável um posicionamento midiático imparcial, politizado mas despartidarizado.