Opinião
MERCADORES DO MEDO
O jornalista canadense Dan Gardner escreveu uma série de textos transformados em livro, cujo tema central é a indústria do pânico divulgada em escala mundial por interesses de lucro das grandes corporações globais ou em função de políticas que interessam ao exercício de poder internacional concentrado. A leitura desses escritos ajuda a revelar que a batalha de ideias é a força motriz para o exercício da hegemonia nos tempos atuais, com o recurso militar da governança global, por via de instituições internacionais, onde o horizonte do cidadão é rebaixado à condição de consumidor passivo. Se de um lado o mundo real encontra-se carregado de perigos, sobressaltos, consequência de um tipo de civilização desprovida de padrões de civilidade substituídos pelo estímulo à disputa sem limites entre os indivíduos, organizações empresariais, ele é retroalimentado ad infinitum à lei da selva onde são exacerbadas todas as ameaças, possíveis ou imaginárias, a que as pessoas estão expostas através da cultura do medo. Dan Gardner cita o exemplo, entre muitos, de um editorial do Times de Londres, que afirma: o número de ingleses mortos por estrangeiros residentes na Grã Bretanha aumentou em um terço em oito anos. Mas não esclarece que a possibilidade estatística de um inglês vir a ser assassinado em seu país por um imigrante seria de 0,00015%, um óbvio preconceito contra a força de trabalho internacionalizada pela nova ordem mundial na Inglaterra, em crise econômica estrutural. Essa promoção do pânico assumiu dimensão global dificultando a reflexão sobre as graves questões que envolvem os países, os indivíduos, incapacitando-os de diagnosticá-las para transformá-las substancialmente. Já o cineasta norte-americano Oliver Stone, em recente entrevista, declarou que a população dos Estados Unidos da América vive sob um Estado orwelliano, controlada pelo medo, vigiada, alienada, embrutecida, incapaz de entender a própria realidade. Tanto a violência concreta quanto a cultura do horror disseminaram-se, inclusive no Brasil, onde são impostos aos cidadãos, através da grande mídia hegemônica, subjetivos padrões ideológicos totalitários. Assim, a empreitada pelo desenvolvimento econômico, soberania do País, não se dissocia da luta por uma sociedade renovada, democrática, libertária, onde o potencial humano possa objetivamente realizar-se, impulsionando a nossa capacidade produtiva e civilizatória.